A Razão do Afeto

Por Fabricio Duque


Exibido no Festival do Rio 2017, “Alguma Coisa Assim” é um filme extensão do curta-metragem homônimo de 2006, que entre os prêmios, ganhou melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes, e de sua continuação com “Sete Anos depois”, sobre dois adolescentes descobrindo a sexualidade por aventuras experimentadas no impulso da emoção, à moda estrutural do seriado “Dawson’s Creek” versão Rua Augusta de São Paulo. No longa-metragem, em questão aqui, a história é desdobrada em novos futuros, que chegam dez anos depois.

Dirigido e roteirizado pelo gaúcho Esmir Filho (de “Os Famosos e os Duendes da Morte”) e por Mariana Bastos, o filme embarca o espectador nas trajetórias desses personagens, que atravessam o tempo, e mostram as mudanças físicas de seus atores, muito parecido com o que o diretor Richard Linklater fez em “Boyhood”. “Alguma Coisa Assim” é uma co-produção Brasil-Alemanha.

A fotografia saturada ao brilho neon, quase psicodélica de formas, cores e ângulos não convencionais, é uma forma de equilibrar o passado do curta com o presente do longa. A ingenuidade adolescente versus a maturidade adulta, fase esta que gera mais responsáveis e novas questões mais realistas e menos mimadas.

Se no curta, a abordagem era sobre as descobertas-identidades sexuais (com a primeira visita a uma boate gay, o beijo casual) de “ser gay ou não”, aqui, os problemas ganham complexas escolhas existencialistas. Lá, a amiga era apenas a ponte a um mundo novo. Neste, ela questiona os próprios sentimentos e cobra uma sentencia (Um veredicto transitou em julgado) para seguir um livre futuro, assim a personagem Nina (a atriz Jennifer Aniston) em “A Razão do Meu Afeto”, de Nicholas Hytner.

“Alguma Coisa Assim” busca a estrutura espontânea de cinema direto, por sua câmera mosca que acompanha naturalmente as micro-ações de seus personagens. É uma construção do tempo “chocado com o senso estético”, de sensação geográfica de pertencimento. “O amor é uma experiência que só faz sentido se for compartilhada”, diz-se, seguindo com um olhar estendido que explica todo o amor sentido. Que prefere a vida itinerante como uma fuga do próprio viver. Até a próxima mudança à moda de “Vermelho Russo”, de Charly Braun.

Enquanto buscam diversão, os jovens Caio (o ator André Antunes) e Mari (a atriz Caroline Abras, de “Gabriel e A Montanha”, “O Mecanismo” – que tem uma inquestionável aparência com a atriz Raquel Bloom, do seriado “Crazy Ex-Girlfriend”), vagam pela noite de São Paulo. Nesse contexto, entre o som e os silêncios, o casal segue se conhecendo, e ao longo de uma década se reencontram em três momentos muito importantes de suas vidas.

Uma das maestrias do filme é a química entre os atores, que trocam perspicácias, constrangimentos, silêncios cúmplices, sagazes olhares e lembranças compartilhadas. E a timidez paralisante e envergonhada. “Um brinde aos nossos anos”, diz-se. Eles vivem uma relação contraditória e defensiva (muito por causa da auto-proteção ao sofrimento) e dizem uma coisa quando na verdade é outra completamente diferente. “Casar é um contrato social”, “Não acredita em relação a longo-prazo”, que é “normal trocar de parceiro”, “procura o poliamor”. Este argumento é defendido com unhas e dentes. Mas uma mentira acaba desencadeando a verdade em algum momento. E a estranha “liberdade da Europa”.

“Alguma Coisa Assim” é uma obra de identificação. Nós, principalmente os mais novos e imaturos, estarão mais receptivos ao tema por viver impulsivamente os dramas dos personagens. Que preenche com elipses e digressões o elemento temporal. Da primeira experiência urgente com um freqüentador de uma boate (o ator Daniel Tavares, do curta “Café Com Leite”, de Daniel Ribeiro – que também transformou seu “Eu Não Quero Voltar Sozinho” no longa “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”) a estabilidade com Sven (o ator Clemens Schick, de “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz). “Se a utopia vem do corpo, ela existe”, diz-se.

O espectador viaja da pressa do crescer ao cotidiano assentado, passando por embriões in vitro, mercado das pulgas, comunas, casamento gay. Mari sofre, mas acredita, assim como Nina, que poderá conseguir o amor platônico e Disney de sua vida. Ou talvez alguém parecido. E aceita até mesmo permanecer no meio em vãs tentativas. Como foi dito, o público sente a verdade não encenada. “Você gosta de miojo?”, pergunta-se. “Imagine se todos viessem com molho de preparo”, complementa-se.

Entre picardias, gênio controlador, droga no Kebab, o contato com a árvore, gravidez e aborto, a metáfora da caixa fechada e o gato dentro (Vivo ou morto?), “Alguma Coisa Assim” é uma experiência de uma moderna ficção-científica (“não importa a nacionalidade”). Todos diferentes. Todos iguais. Há o afogamento e a câmera sensorial que gira (e chega a causar tontura). As metáforas acontecem. A ação também. Fica mais agressiva, imediatista e direta. Busca-se resolver na hora. Com chiliques, provocações, agressões físicas, ofensas. Sim, é a catarse. Necessária. Lavar a roupa. Eles comportam-se como crianças grandes. Como vítimas. Não sabem conversar. Loucura, descontrole, depressão e lágrimas. Estão no limite. Em colagens e mensagens. E a boate em ruínas.

“Alguma Coisa Assim” é um estudo sobre o tempo. De uma época que não existe mais. Que se transmutou em uma acelerada confusão do sentir, amar, existir e do ser. É a perda da inocência. O encontro a uma maturidade que nos destrói dia após dia. Que nos limita na complexa pluralidade de uma liberdade sem limites. É uma viagem a um tempo saudosista que foi vencido pela casualidade individualista das relações humanas.


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