Calma, Melinda!

Por Bruno Mendes


Eu não conhecia a palavra acrimônia. No dicionário o termo está definido como: modo de agir indelicado, áspero, mal humorado. No sentido figurado trata-se de uma crítica severa e injusta a algo. Logo nas primeiras cenas do longa, que se chama justamente “Acrimônia” (dirigido por Tyler Perry), a protagonista escancara sua raiva e crítica intransigente ao companheiro de uma união que compreendemos ser problemática. Ela é recomendada pelo juiz a parar de criar problemas, mas entendemos ser prematuro julgá-la de maneira simplista. O que teria acontecido a aquela mulher?

Malandramente Perry puxa o tapete do espectador com pegadinhas discretas e a pulga atrás da orelha surge fácil. Melinda (a protagonista, interpretada por Taraji P. Henson) diz, na contraproducente sessão de terapia, que “quando uma mulher negra tem raiva é um estereótipo”, com presteza, o universo fílmico conduz o espectador à curiosidade e as dúvidas brotam. Ponto para o roteiro pelo acerto de cativar a atenção de modo competente, claro, se analisarmos a obra como ela, de fato, é: um produto de entretenimento, comercial, quase despretensioso.

Ao pontuar as questões de Melinda, a narrativa de Acrimônia salta em direção a um terreno confortável e por intermédio do combo flashback + voice-over, por onde a conhecemos na faixa dos 20/21 anos, entendemos como conheceu e se apaixonou por Robert (Lyriq Bent), apontado no off como um sujeito cafajeste, aproveitador, sonso e outra gama de desqualificações. Após aquele início de relação no melhor estilo “tudo são flores”, a moça terna adquire fúria incontrolável ao flagrar uma traição do namorado. Eis a mulher que fuma diante da terapeuta!

Melinda é pé no chão, obstinada, responsável. Depois da morte da mãe recebe a casa de herança e 300 mil dólares para investir no futuro. Robert mora em pequeno trailer, é um estudante de engenharia inteligente, que se dedicada a uma invenção que promete ser revolucionária, mas não faz esforço em ajudar no orçamento doméstico, deixando sua esposa triste, cansada e….com raiva. Dívidas, casa hipotecada, planos esfacelados, ausência de sexo, falta de amizade.

A obra não deixa de focar sua lente de aumento em dilemas da relação tão comuns entre casais de classe média no mundo inteiro. Respeita-se o sonho do outro de “trabalhar com o que gosta”, mas a conta da luz chega e alguém precisa se virar, ou melhor, ambos devem cumprir com as obrigações da casa.

Podem ser destacados dois campos de abordagem no filme. Acrimônia é um raso, porém eficaz estudo de personagem; é sobre transtorno de personalidade, reações abruptas, desatinos. Em outro gancho, o filme abre o leque para prudentes reflexões sobre o sistema econômico global e as dificuldades em ‘ganhar dinheiro’ sem escamotear anseios. Dívidas são ampliadas, pessoas são induzidas a se submeterem a empregos pouco interessantes, pois as reais intenções custam caro e flertam com o impossível.

Não sugiro que exista uma crítica infantil e superficial a aquilo chamado há algumas décadas de “capitalismo selvagem”. Acrimônia não desliza nesse sentido, contudo, Robert é a personificação do talentoso frustrado; e esse personagem é real no âmbito das desigualdades e crises oscilantes, do mundo fora do espaço diegético.

Ao abrir caminho para distintas reflexões sobre as atitudes dos personagens, Acrimônia rompe com exposições maniqueístas e ganha interessante força dramática. Infelizmente, nos últimos atos, o tom “filme de gênero” prevalece e dilui a ambição reflexiva até então evocada, e a obra torna-se um frágil e insosso suspense psicológico.

Não há desarticulação lógica entre as ações finais e o que vinha sendo construído. No entanto, é pertinente pensar que Melinda e Robert solicitavam o mesmo tratamento do roteiro e direção que obtiveram em instantes anteriores.

Ok, Melinda é instável, suas atitudes são imprevisíveis e podem se tornar danosas( não há nenhum risco de spoiler, afinal será fácil concluir essa hipótese), porém, é plausível supor que os realizadores buscaram acelerar processos e escorar o filme em fórmulas. Permeia certo tom de “Atração Fatal”, que é um bom filme de gênero e tem proposta definida. É um filme reto e não curvilíneo, como Acrimônia estava sendo apresentado até então.

O produto de Tyler Perry é divertido, capta a atenção do espectador nas suas longas 2 horas e até seria apresentável em mesas de debate. Faltou excluir o botão do “vingativa e perigosa” da reta final.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados