A eterna síndrome de vira-lata

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra Cavídeo 21 Anos


“Cidade Invisível” é acima de tudo um filme crítico sobre a existência comportamental do Rio de Janeiro e seus moradores. É um estudo antropológico sobre a arte de ser carioca. É uma análise adjetivada e filosófica de nossas características principais. A narrativa em estilo aberto conduz-se propositalmente pela soltura do tempo. É cinema direto, caseiro, amador, urgente e livre em captar o instante da fala insatisfeita de seus interlocutores.

O documentário, dirigido por Terêncio Porto, e integrante da Mostra Cavídeo 21 Anos, embrenha-se na organicidade da Cidade Maravilhosa. Em suas falhas desestruturadas, obras inacabadas, falta de memória, ruínas esquecidas, poluições, violência e seus confrontos segmentos entre pobres muito pobres e ricos muito ricos.

Mas também uma obra solta demais. Livre demais. Como um protesto verborrágico-imagético que odeia o gostar. São momentos-esquetes, cenas estendidas que traçam a alienação sem noção de indivíduos que não foram feitos para viver em sociedade. É um questionamento em relação às maravilhas da cidade do Rio de Janeiro e como a vinda da família real para a cidade, em 1808, influenciou a sua infraestrutura, arquitetura e até mesmo o estilo de vida carioca.

“Cidade Invisível” corrobora a máxima de que nós brasileiros, haters, sempre achamos a grama do vizinho mais verde. Que nossos problemas e questões são imutáveis, mais complexos e sintomáticos. O filme divide-sem em irônicas e explícitas variações críticas. Há a corretora que discursa ensaiada sobre as maravilhas do condomínio Península. Sim, não tem como não inferir a “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho. Há o debochado-agressivo ambientalista que se voluntaria para limpar as águas da Barra da Tijuca.

Há a senhora que resignada aceita morar em ruínas, resquícios de moradias da família real. Há o mauricinho que se pauta no estagio VIP das celebridades e em ter poder de entrar em qualquer festa. E há os pensantes. Os que analisam com precisa tradução os porquês, causas e consequências de nossos problemas, como o bate-papo descontraído cervejeiro com João Paulo Cuenca, este que realizou “A Morte de JP Cuenca”, que por sua vez é extremamente pertinente e referência a este documentário em questão aqui.

Nós esquecemos que toda e qualquer cidade do mundo não é imune a problemas. Cada lugar é definido pelo comportamento de seu povo. O “nariz em pé” dos parisienses. Os passionais jogadores ingleses. O trabalho excessivo dos paulistas. Se analisarmos, então perceberemos que a perfeição não existe. Mas uns são mais projetados e naturalmente mais saudáveis.

“Cidade Invisível” é sobre nossa aceitação em concordar com a errônea estrutura. Nós fechamos os olhos. E em confissão, nós somos culpados por causa de nossa submissão. Estamos mais preocupados com o futebol, o samba, a Copa do Mundo, e nem um pouco com a política. O filme é sobre esta invisibilidade do Rio de Janeiro, visto que “todos nós somos turistas em nossa própria cidade”. Nos adequamos sem lutar por melhorias. Uma hora pelas ruas cariocas é para deixar qualquer estrangeiro de cabelo em pé.

Mas também é a cidade “mais bonita do mundo”, frase repetida a exaustão por um “profissional das areias” com um “escritório na praia”. Este guerreiro que acorda cedo para servir os turistas, em frente aos prédios de frente ao mar, e contrastado pela vista “em conta” das comunidades financeiramente despreparadas, e enche os pulmões para dizer que não precisa de mais nada na vida. É o eterno otimismo do brasileiro, que deveria ser estudado. Que nunca desiste, que sobrevive no “jeitinho-molecagem”. Que sofre com a violência. Com crianças passando fome na rua. Com os preconceitos mais primitivos.

Contudo, “Cidade Invisível”, como já foi dito, é livre demais. Caseiro demais. Amador demais. Tudo por apelar aos gatilhos comuns estereotipados a pobreza versus riqueza. Da exposição midiática das celebridades aos seres invisíveis do dia-a-dia. No elenco de entrevistados, ainda temos Daniel Sabbá, Ignácio Cano, João Ximenes Braga, e tantos outros. “O Brasil vai virando a paródia fetichista de um filme de terror”, disse Felipe Bragança no Facebook, só que nós como ovelhinhas treinadas ficamos mais e mais. Talvez por medo, talvez pela síndrome do vira-lata.

  • A crítica me parece bem feita, faltando algumas observações entretanto. A poesia estética das imagens, o som bem concatenado com as cenas, valorizando-as, o humor entremeado com a dor fazendo o espectador rir e às vezes quase chorar etc. Do meu ponto vista o mais importante é o “sacode” que dá no público carioca pra fazê-lo olhar pra dentro da sua própria carioquice pra aí sim começar uma auto-crítica diante das verdades até então veladas. Tira o pano pra ver o Invisível.

  • A crítica é bem feita, mas faltou abordar alguns aspectos, a meu ver. A poesia na estética das imagens, o som bem concatenado com as cenas valorizando-as, o humor e a dor se alternando a cada novo quadro e, principalmente, o mais importante, que é o “sacode” no público pra fazê-lo olhar pra dentro e fazer a autocrítica da sua carioquice. Bota o dedo nas feridas da cidade e na invisibilidade no comportamento dos cariocas, que não vêm a realidade mostrada na tela. Nua e crua.

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