A edição 2018 do Anima Mundi e Sua Abertura

Por Vitor Velloso


Todo ano o Rio de Janeiro recebe um espírito novo durante o período do Anima Mundi, que engaja parte dos cinéfilos, para um mundo de fantasia, nas animações. Este ano, 2018, o festival completa 26 anos de trajetória, um marco impressionante. Tendo sempre em mente temáticas atuais e buscas por novas linguagens, o Anima Mundi, vêm acertando em suas abordagens, dando voz a pessoas que merecem ser ouvidas.

A diversidade de sessões proporciona para o público uma seleção mais específica daquilo que se deseja assistir, exemplo, a sessão infantil, que exibe apenas filmes destinados ao público mais jovem. Vale lembrar, que todas as outras sessões fora desse programa, estão sujeitas às mais variadas classificações etárias, logo, cuidado para não levar a criança a um filme que ela não deveria assistir. Eu particularmente sou contra a proibição da entrada de qualquer faixa etária em qualquer exibição, acredito que se existir a formalização do senso que a pessoa assume, ou seu responsável, a responsabilidade de estar entrando em uma sessão onde não é aconselhado a ela, bom, ela se responsabilizou. Mas como isso é uma discussão para outro momento, devo avisar a todos sobre este fator, pois, ano passado, durante uma projeção, vi uma mãe sair xingando todas as pessoas do cinema, por terem exibido um filme com conteúdo sexual. Ora, animação não é necessariamente infantil, por isso, existe essa separação na programação. Mas vamos ao ponto.

A sessão de abertura foi realizada no Odeon, com a presença de diversos convidados, entre eles artistas, cônsules e produtores. A apresentação, que possui cobertura em vídeo aqui no site, narrou a dificuldade dos criadores em idealizar o projeto na proporção que ele se encontra hoje, suas ambições, que não mudaram, e parte da história do festival. Após os devidos agradecimentos a sessão começou. Não foi exatamente um programa que acontecerá durante o período do Anima Mundi, foi um compilado de alguns curtas espalhados pelo mesmo. Foram eles: “Híbridos”, “Guaxuma”, “Animal Behavior”, “Home: A portrait of New York City”, “Heróis”, “Weekends”.

Híbridos é um curta francês, de 6 minutos, dirigido por Florian Brauch, Matthieu Pujol, Kim Tailhades, Yohan Thireau e Romain Thirion, que utiliza do tema, poluição, para gerar sua narrativa. No filme os animais são constituídos de parte de lixo, a tartaruga é feita de panela, o peixe de lata e assim em diante. Não existe uma intenção exata por trás da obra, a ideia é a denúncia dessa poluição através de uma proposta de cinema de gênero, buscando o tom da ação, por isso, ele é bastante dinâmico, perseguição, confronto etc. É um curta divertido, mas que não possui nada além do valor de entretenimento atrelado a uma temática relevante pouco, ou mal explorada.

Guaxuma foi o representante brasileiro na sessão, dirigido por Nara Normande, o filme de 14 minutos explora uma espécie de brasilidade que vêm sendo consumida pela verticalização social, além de ser um retrato singelo sobre uma amizade que é testada pela distância, pelo tempo e pelas diferenças. É um curta extremamente púdico no seu relato, há nele uma aura inocente que complementa a brincadeira de linguagens realizada pela diretora. São diversas formas de estética sendo exploradas simultaneamente, com seus propósitos bastante claros. Esse jogo formal proposto pelo filme, rendeu uma sessão de deleite plástico, é um curta lindo, não há outro adjetivo a ser usado. Agradável, atual e livre. O melhor da noite.

Animal Behavior, dirigido por Alison Snowden, é um curta canadense que antropomorfiza os animais a fim de gerar uma crítica a persona social do ser humano, seus anseios, frustrações, mas tudo isso com muito amor. Trata-se de um filme engraçado que consegue em seus quase 15 minutos, entreter o público e arrancar algumas risadas. Não há como adentrar muito sem contar algum spoiler, já que ele é baseado em seus diálogos. Mas é engraçado e passa num piscar de olhos.

Home: A portrait of New York City faz parte do desafio que o diretor John Morena se colocou. Fazer um filme por semana, totalizando 52 ao final do ano. O curta em questão é a sua visão de Nova Iorque através de um jogo de imagens e sons, tudo feito de uma forma muito dinâmica e objetiva. É formalmente interessante, possui uma visão bastante concreta do assunto. E com apenas dois minutos, o público se esbalda nas cores do curta.

Heróis, curta argentino, dirigido por Juan Pablo Zaramella, possui três minutos e narra a história de cinco dedos que vão a uma batalha, não posso dizer qual, e o polegar é o técnico dos outros quatro. É bastante divertido, engraçadinho e consegue trabalhar bem a expectativa do espectador.

Weekends, é um curta norte-americano, dirigido por Trevor Jimenez, que possui 15 minutos de duração, é um retrato extremamente delicado de uma criança que vive entre as residências de seus pais divorciados. Eu quero evitar contar ao máximo qualquer coisa além dessa sinopse básica, pois, é uma experiência sensorial muito singela, que vai a fundo na alma da criança e extrai seus medos, anseios e desejos sem ferir a personagem. Um curta com uma energia única, rendeu meu segundo lugar do dia.

O primeiro dia, em geral, foi um bom começo para o festival, tendo o Brasil como a estrela mais brilhante da exibição.

Existem duas considerações que eu gostaria de fazer sobre o festival, antes de terminar o texto. A primeira é que eu realmente não entendo o motivo do catálogo ser preto e branco, tratando-se de um festival de animação. Sei que a impressão colorida é, consideravelmente, mais cara, mas posso afirmar, que as cores não são apenas para as crianças, diminuir barreiras com a atração do público que está de passagem, é extremamente válido. Meu segundo comentário é que acho extremamente importante sessões que utiliza a linguagem de sinais para a tradução dos deficientes, acho que combina com uma das frases dos criadores “É um festival para todos”. Porém, deveria ser colocada uma luz específica no tradutor, que não atrapalhe a exibição da sessão. E não utilizar a iluminação de palco, quase que completa, para iluminá-lo. Desta forma todos poderiam ter uma experiência mais agradável.

Mas ainda assim, é um festival com bastante alma e que possui um certo carinho. Um bom começo.

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