Subestimando grosseiramente o público

Por Michel Araújo


“Tio Drew” conta a história do técnico de basquete fracassado Dax (Lil Rel Howery) que vê uma oportunidade de sucesso ao encontrar com a ex-lenda fictícia do basquete, o idoso Tio Drew (Kyrie Irving). Ao primeiro ato do filmetestemunhamos o protagonista Dax perder seu time e sua namorada para o antagonista Mookie (Johnny Kroll), ser expulso de casa e demitido da loja de artigos esportivos que trabalhava posicionando-se narrativamente na linha de partida para uma tão replicada “jornada do herói fracassado”.O restante da obra é, portanto, mais previsível que uma sitcom da década de 1990. Os planos subjetivos de Dax sonhando com seu passado no orfanato e seu trauma com relação a seu fracasso como jogador – motivo pelo qual se tornou meramente treinador –entregam de bandeja a resolução para a história com absolutamente nenhuma ponta solta.

Dirigido por Charles Stone III (Mr. 3000, Step Sisters), o filme (obviamente) não apresenta autoria alguma com relação a qualquer outra comédia familiar estadunidense da última década. O que ele traz para a mesa é um cardápio completo de prato vazios que já não alimentam mais nenhuma narrativa: Um protagonista que deve superar alguma derrota que marcou sua infância? Confere! Umacoadjuvante feminina que meramente serve para preencher a vida amorosa do protagonista? Confere! Um antagonista monodimensional cujo único objetivo de vida é derrotar o protagonista? Confere! Cena em que um idoso derrota um jovem cético no seu próprio jogo revelando ser um habilidoso “mestre”? Confere! E talvez o melhor de todos… cena em que os protagonistas são intimidados por um grupo de figurantes e acertam as contas numa “batalha de dança”? Infelizmente, confere! A lista poderia continuar por parágrafos e parágrafos de todas as fórmulas batidas das quais Tio Drew se apropria, e atualmente qualquer filme que o faça não-ironicamente se prova ser um absoluto fiasco criativo.

As atuações cumprem seus propósitos razoavelmente bem. Considerando que os personagens só têm uma direção para seguir – Dax, o afobado, Tio Drew, o sábio, Mookie, o vilão louco, e assim por diante –, nenhum deles falha em cumprir a tão limitada função a eles atribuída na história. Nesse contexto até mesmo a atuação de Shaquille O’Neal como o rancoroso “Big Fella” nos parece aceitável. E uma certa tendência no humor estadunidense atualmente seja uma proposital quebra de ritmo em que os personagens divagam sobre algum assunto paralelo ao tema principal do diálogo – no caso de “Tio Drew” geralmente são os sarros feitos com o protagonista Dax que executam esse papel. O que talvez decepcione realmente seja ver Lil Rel Howery – que se saiu tão bem em seu personagem cômico em Corra! (2017) – tentar replicar sua fórmula de atuação aqui de forma significativamente mais fraca. No suspense racial a atuação de Lil Rel se destacava justamente por cumprir em alguma medida uma função crítica relacionada à chacota que negros sofrem cotidianamente por suas acusações contra apropriação cultural e discriminação. Ao mesmo tempo que nos diverte o jeito afobado e eufórico de seu personagem, no contexto da trama nos faz repensar as situações da realidade. E para nossa surpresa, uma de suas tiradas cômicas em “Tio Drew”é justamente quando seu personagem afirma que “já assistiu Corra”. O humor não precisa subestimar o público. Mesmo em comédias familiares não há necessidade de comprometer toda e qualquer seriedade em função do divertimento. O antagonista branco Mookie que lentamente se apodera do estilo de vida de Dax – treinando seu time, conquistando sua namorada, e até mesmo passando a vestir as mesmas roupas que ele – é uma razoável alfinetada no tema da apropriação cultural, mas uma que infelizmente se acovarda e não mostra toda a sua indignação. Talvez o ápice crítico do – filme seja a cena em que, ao ser entrevistado para a televisão, Mookie diz ser formado pela “Universidade Trump”, o que ainda não é dizer muito, pois associar a imagem do presidente Donald Trump à burrice se disseminou na cultura popular de forma tão corriqueira quanto o “Fora Temer” aqui no Brasil, e sendo assim, já não levanta mais o incômodo que deveria, ou qualquer crítica efetivamente pontual.

O que nos resta são as migalhas de um cinema de grande circuito que não assume qualquer compromisso de respeito com seu público. “Tio Drew” não bebe dos clichés narrativos, mas se afoga neles, na presunção de estar “dando ao público o que ele quer”. Nessa intenção o cinema e todas as outras artes mandam por ralo abaixo o potencial que tem de fazer alguma diferença, seja para a sociedade, ou seja para seu próprio território artístico. A tendência de figuras públicas e celebridades é se defender de qualquer acusação de individualismo e descaso social atrás de um humanismo raso, e “Tio Drew” – assim como todos os outros dejetos hollywoodianos – desmascara a hipocrisia desses discursos pelo desserviço que o filme cumpre.

  • Mermão esse filme é brabo. Jefferson Leo tem toda razão, ri pra caramba, meu tio Robson teve que ir no banheiro durante a sessão, de tanto rir. Minha prima Vilma deixou até o Del Vale de Banana da Terra cair. E eu acho o roteiro inteligente e a fotografia muito bonita. Sou muito fã do diretor.

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