Semente plantada, Fruto Colhido

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra Cavideo 21 Anos


O ex-jornalista Barry Hampe, em seu livro “Making Documentary Films and Reality Videos”, apontou que “Fazer um documentário é um exercício de construção de um modelo”. É a arte de escrever sem palavras e significa pensar em palavras. A diretora Patricia Terra não só planta a semente como perpetua a árvore musical com seu filme “Semente da Música Brasileira”. Um panorama histórico do “menor palco do mundo com a maior música do mundo”. Na verdade, é um estudo de um bar que revitalizou a brasilidade raiz sambista da Lapa (e contra a imposição maciça da trilha-sonora americanizada e até mesmo contra Getúlio Vargas e Cesar Maia), o Semente, que depois se reconfigurou Comuna, que abrigou jovens talentos, os ensaiando e impulsionando ao mundo.

“Semente da Música Brasileira” conduz o público espectador em uma passional narrativa híbrida, que conjuga o formato clássico com a divisão a parte de áudio da parte de vídeo, de cinema direto, bruto, improvisado da perfeita cena filmada com as evidências visuais e suas tensões estruturais. O estilo é aberto e livre, permitindo que possamos descobrir curiosidades, sentir a emoção desmedida do momento, observar os conflitos e se entregar de forma catártica à energia da música emanada. O documentário é intimista e caseiro transe. Sua câmera próxima, subjetiva, invasiva e personagem participativo cria a imersão do fluxo contínuo passo-a-passo entre a fotografia psicodélica setentista, os bastidores-ensaios, fotos antigas, vídeos-apresentações pessoais de rodas de samba.

“Toda esquina tem uma energia especial. Se não fosse isso, o pessoal colocava despacho no meio da rua”, diz-se aludindo que o Semente estava localizado entre duas ruas (e próximo à famosa casa de Madame Satã – esta, uma informação extra deste texto), cuja “arquitetura influenciava o que acontecia dentro”. E seu passado. E a energia de “tudo quanto era tipo”. “Era assustador, inacreditável e o bicho pegava às vezes”, lembra-se. É uma homenagem. Nostálgica. Um saudosismo esperançoso da volta de uma época iniciada em 1998 (pré bug do milênio) e, que, com a garra “louca” de guerreiros (a Regina da Uerj, a Aline e todos os colaboradores financeiros), se manteve até 2017. Ano passado.

É um documento de uma vida que lida com o comportamento, ambiguidade e incerteza. Com o recomeço e o conflito dramático dos limites aguentáveis e as recorrentes reviravoltas da necessidade de se reerguer. Um importante fragmento da história do Rio de Janeiro. Sim, o primeiro samba-marchinha “Pelo Telefone” foi feito na Lapa. Semente era “a igreja” destes iniciantes artistas: Moisés Marques, Casuarina, Roberta Sá, Teresa Cristina, Yamandu Costa. No dicionário, a palavra semente é “a parte do fruto que contém o embrião no estado de vida latente”. Definição precisa ao bar-família que abrigou e salvou a boemia da arte cultural.

“Semente da Música Brasileira” é uma viagem no tempo. Um transporte à essência de uma música que canta “elas só gostam de homens com a mulher do lado”. É sobre impulsos e paixões, estas que rasgam a alma e desnudam a razão. É uma volta. Com outro “elenco”. Era um laboratório, que cunhou o termo “sementismo” por tocar livre, leve e solto. Uma casa de portas abertas aos amigos. Um imã a este “tipo de som” que “não tem idade”, que “não é velho”.

Uma geografia emocional. Uma energia especial. Um clima maravilhoso. Que até os “tiros que não acabavam com a música”. Um manto musical. Um símbolo de reunião.Mas a Lapa foi ficando “livre demais”. Uma “paixão demais que chega à irresponsabilidade” (por manter o espaço contando as últimas notas do dinheiro). É uma história de resistência. Um centro cultural. Um “centro espírita”. Um militante “quartel-general”. Não falta adjetivos ao Semente. Esta é exatamente a maestria do documentário: os improvisos (de “preservar a esculhambação”) descuidados e despretensiosos, tornando assim a descoberta mais interessante. Deixa-se acontecer.

O filme, com roteiro de Paulo Henrique Fontenelle, segue na documentação linear. A mudança ao Democráticos. E o retorno com fama internacional. De Norah Jones a Dave Mattews Band, passando por Madeleine Peyroux e a “canja pedida” de Chico Buarque. É uma trajetória “que faz acreditar na vida”. “Não é um padrão, é um estilo”, define-se a “casa de som”. “Um fracasso que deu certo”, diz com inocente humor espirituoso. Um lugar “mais intimista com a música”. “Semente da Música Brasileira” é um filme para sentir o espírito Jam Sessions da “música boa” e para assistir bebendo com amigos em uma mesa de bar. Sim, Patrícia Terra tem a mão boa para plantar. E sua semente emociona e cresce ao longo do filme. O filme integra a Mostra 21 Anos da Cavideo. Mais uma bola dentro de Cavi Borges.

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