Primavera Francesa

Por Vitor Velloso


Existem filmes que possuem boa intenção em seu discurso e em sua proposta, ou em sua abordagem temática, relacionando o passado e presente, tendo em vista o futuro. Mas que com uma construção estruturalista completamente desorganizada, que vai pendendo ao pretensiosismo barato, destrói toda sua pré-concepção.

“Primavera em Casablanca” encaixa cinco histórias paralelas em suas quase duas horas de filme, buscando a ligação entre elas através do preconceito, religião, resistência e violência, é claro. A ideia não é nova, diversos longas fizeram isso ao longo dos anos, o mais famoso que muitos vão citar é “Babel”, pela proximidade temática que se constrói em torno de ambos. Tal conceito não é problemático quando bem utilizado, pois, se cria pontos de vista diferentes, do mesmo assunto, criando assim, um conflito entre as mesmas visões, promovendo o debate além da sala de cinema. O que não é o caso do projeto dirigido por Nabil Ayouch.

O roteiro não consegue suprir o conceito por trás daquilo tudo, sempre mantendo-se na superfície e claro até demais. Há muita luz nas discussões que se apresenta, buscando simplificar algo mais complexo que o próprio diretor pode compreender, não por incapacidade, mas por se tratar de um assunto que vai muito além de qualquer discussão. Não há exatamente uma militância, sobre o sexismo, ou abuso político, homofobia, apenas há uma tentativa de denúncia, que não busca compreendê-lo. Não que haja alguma discordância do discurso proposto, mas não se enfrenta Golias sem saber que ele é um gigante, assim como não se discursa com câmera sem saber como fazê-lo. Novamente, não acho Nabil um diretor sem nenhum mérito, mas muitos equívocos foram cometidos aqui.

Um deles, é que não se filma revolução com estética reacionária. Ainda que fique claro que a proposta do filme não era começar uma revolução. Realizá-lo no padrão dramático norte-americano, para conseguir seu lugar em diversos festivais ao redor do mundo, é, no mínimo, problemático. O outro é a forma como ele resgata essa montagem paralela que se unifica, fora da imagem ou dentro de um elemento específico, é utilizada de uma maneira pouco diacrônica, suas amarras ao tempo são fortes demais. E quando os contextos das histórias mudam, não se problematiza essa mudança dentro da discussão. Tornando a obra um grito de liberdade nulo. Não se muda nada gritando sozinho em casa. Esse medo de exposição por parte do diretor, talvez para evitar as críticas dos países europeus, não apenas anula suas vontades, como promove seu oposto. Justo dizer que não se trata de um filme reacionário, mas os contornos se assemelham.

Os atores buscam aquilo que podem de seus personagens, que possuem diversas lacunas em suas abordagens. Sem dúvida Maryam Touzani é a que mais se destaca, pois seu arco também é um dos melhores definidos. Não vou me aprofundar em nenhuma história, pois, elas são tão superficiais que qualquer informação que eu der, vai entregar uma parte considerável. Ainda que eu possa dizer que a mais interessante é a que abre e fecha o filme. Como trata-se de múltiplas histórias que se relacionam de alguma maneira, imagina-se que a montagem pode ser algo que defenda o longa como alguma expressão de valor que a justifique. Na verdade, não, a montagem está tão perdida quanto o diretor, atira-se para todo lado, não se acerta nada.

Enquanto vemos tudo se desmantelar em suas próprias ideias, ao se aproximar da conclusão, tudo se intensifica. A proposta era intensificar a narrativa para que pudéssemos sentir a imponência de tudo isso diante da tela. A verdade é menos interessante, todos erros também se intensificam. E se não bastasse, a exposição se torna ainda mais evidente, pois tudo o que regia o longa, já estava extremamente óbvio, mas ainda assim, eles reforçam a ideia e essa redundância, só confirma que o filme tinha medo do próprio assunto.

A primavera árabe sofreu um golpe.

“Primavera em Casablanca” tenta ser ambicioso, atual, crítico e histórico. Falha em todos estes aspectos, mas deixa uma lição bastante clara para o cinema francês contemporâneo, que a norte-americanização do cinema não é mais uma hipótese, é um fato. Defende isso de certa maneira, com a própria concepção e arte do longa e prova ao mundo, que aquele que já foi um dos países que mais revolucionou a sétima arte, passa fome. Glauber sabe bem qual.

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