Fetichismo biográfico

Por Vitor Velloso


Existe uma linha muito tênue, em determinados assuntos, entre fetichismo e admiração. Quando um desses assuntos esbarra em Egon Schiele é complicado saber quando um termina e o outro começa, ainda mais se tratando da obsessão do artista em questão.

O novo filme sobre a vida do artista que dá nome ao filme, busca homenageá-lo como um dos artistas mais provocadores do século XX e defensor da liberdade de expressão do artista. A partir da sua relação com a esposa e suas demasiadas relações amorosas, incluindo, claro, Wally, onde o filme pode e vai, esbarrar com algumas discussões éticas e morais acerca dele, pois a personagem em questão possui 17 anos. Ele na época chegou a ser acusado de não ser um artista de fato, apenas uma pessoa que retratava a pornografia.

Schiele é um artista complexo e intrigante, mas infelizmente, a admiração do diretor por ele atinge o nível do fetiche, ainda que haja o mesmo haja na vida do artista, retratá-lo consumindo-o para a eternidade, é uma forma de se fazer filme que não é condizente com a própria estética do autor. Este que abraça suas obsessões, a ponto de retratá-las da maneira como as sente. Enquanto Dieter Berner, apenas tenta guiar o espectador através de sua paixão pela arte do pintor. Como exercício estético, o longa beira o cafona, com planos já batidos pela indústria, uma determinada artificialidade da direção de arte que tenta purificar esse universo ambientado por Schiele.

O problema é que essa ideia não surge para acrescentar à personalidade do artista, mas sim, para personificar o protagonista na forma fílmica. Parece um grande tapete vermelho para que o discurso seja feito. Por isso, vemos seu escândalo envolvendo um abuso infantil ser banalizado, quase ao ponto do fetiche, pelo diretor. Onde existe quase uma encantação pela cena. O que de fato, deveria ser problematizado, pois, obviamente, não trata-se de uma acusação que se deixe de lado, assim como sua polêmica envolvendo incesto. Que o filme não aborda. Levando em consideração o ponto de vista histórico, não há exatamente uma preocupação em retratar esta realidade, nem de ser imparcial. Por isso, como uma forma de se introduzir o artista há alguém, talvez não seja a melhor das opções.

Mas o longa de Dieter Berner, não é um desastre total, pela personagem, Wally, interpretada pela Valeria Pachner, que consegue criar uma sedução em torno da personagem, ao mesmo tempo que é angelical. Ela possui um desenvolvimento menor que deveria, mas possui grande relevância na trama, por se tratar de uma intensa paixão de Schiele, interpretado por Noah Saavedra, que estreia como protagonista em longas metragens, tendo feito uma pequena participação em 007- Contra Spectre. Noah segura bem a ponta, mas não consegue se destacar do restante, ainda que o centro de gravidade narrativo esteja nele. Mas possivelmente irá agradar a burguesia que comanda o cinema germânico. O formulaico reina na estrutura dramática, o filme parece ter saído do forno, pronto para as premiações européias, além de com certeza, ter tido mais espaço por retratar a vida de um artista importante.

Quanto a Gerti, sua irmã, serve como esqueleto para guiar a história, revirando as pinturas do irmão ela passa a inclinar a memória do projeto ao público, a relação incestuosa entre eles que eu havia citado, fica implícita em alguns diálogos e algumas cenas, provavelmente para poupar a imagem do artista.

Essa covardia diante do roteiro, é uma das piores coisas do filme. Pois, há um receio de encarnar na pele do personagem uma figura de moral e ética duvidosa, sempre representando isso como apenas um caráter boêmio do pintor ou algo comum entre os artistas. Seus problemas pessoais são elevados a “coisa de artista”. Essa “desculpa poética”, para não falar preguiça, nada mais é do que falta de pesquisa. Qualquer pesquisa realmente bem elaborada sobre qualquer artista, descobre-se que muito do que sabemos sobre eles, tratava-se de uma performance que criava uma máscara, uma persona da imagem delas às pessoas. Não que aqui o roteiro erre, em todos os pontos, mas é necessário humanizar e problematizar as relações do protagonista com o mundo a sua volta.

“Egon Schiele: Morte e Donzela”, cumpre com aquilo que a indústria quer “um resumo bem didático e politicamente correto da vida do artista”. É completamente esquecível, bobinho e chato.

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