Os Bem Armados

Por Fabricio Duque


Há uma coisa que não se deve fazer na sétima arte: ir ao cinema sem se despir de pré- conceitos, principalmente sobre o gênero de comédia. Tudo porque há o elemento surpresa. “Uma Quase Dupla” vai contra aos prévios sentimentos do imaginário popular que acredita que todo filme que faz rir é menor e desprovido de inteligência e qualidade.

Sim, o longa-metragem, em questão aqui, é um “tapa com luva de pelica” àqueles com que vão com os “pés atrás”. Essa talvez seja a característica principal de um crítico: saltar no vazio totalmente desnudado de achismos enraizados. Então vamos lá.

“Uma Quase Dupla” é um despretensioso longa-metragem de situações. Suas personagens são responsáveis cem por cento pelas consequências com desengonçadas interferências de suas ações, reações e excêntricas manias existencialistas. É o acaso que encontra a paródia.

Quando uma série de assassinatos abala a rotina da cidade de Joinlândia (“porque tudo é muito jóia”), o calmo, pacato, metrossexual (“filtro solar”, Maria Gadú e Tiago Iorc) e filhinho de uma mãe (naturalmente sexualizada com muito jeito de judia) subdelegado Claudio (Cauã Reymond) recebe a ajuda da destemida e experiente investigadora Keyla (Tatá Werneck), a “policial escrota”, nas investigações. No entanto, a diferença de ritmo e a falta de química dos dois atrapalharão a solução do caso. Ele,. Ela, realista e com técnicas não convencionais.

É inevitável não encontrar semelhanças com a hollywoodiana estrutura deste gênero, principalmente à moda de “Bem Armadas”, de Paul Feig. Tatá encarna Melissa McCarthy e Cauã, a versão masculina de Sandra Bullock. O filme é uma blaxpoloitation sopa abrasileirada, com canja que inclui de “Shaft”, de Gordon Parks, a um engraçadinho “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, passando pela atmosfera de Quentin Tarantino, e seu “Jackie Brown”, e por cenas icônicas que vão de “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, a “Sr. e Sra. Smith”, de Doug Liman.

“Uma Quase Dupla” é uma sátira “CSI”. Uma obra de humor negro (e escrachado) embasado e embevecido no politicamente incorreto. É o famoso “awkward”, artifício que utiliza o constrangimento ofensivo como fio condutor. É uma cúmplice zoação à moda de um “Porta dos Fundos” com “Mister Bean”. Uma molecagem de adultos que se comportam como ingênuos adolescentes “Porky’s – A Casa do Amor e do Riso”, de Bob Clark. “Senta lá Claudio!”, diz-se parodiando a expressão “meme” que a Xuxa usou “Senta lá Cláudia!”.

O filme segue seu roteiro (assinado por Ana Reber e Leandro Muniz, com colaboração de Tatá Werneck, Fernando Fraiha e Daniel Furlan) pelas “polivitaminicas” investigações de um “assassinato esperado”. É espirituoso, com ininterruptos alívios cômicos, com música brega. Claudio é a essência de um policial do interior. Que luta para ser respeitado para ser um delegado. Tem um que de Jason de “True Blood” e ou Andy Brennan de “Twin Peaks”. Limitado, passional, sensível, humanizado, com “instinto policial” e que pinta o cabelo.

Keyla representa o ser humano que não pode errar. Que precisa estar sempre certo. É petulante, desequilibrada, “chata”, “intransigente”, sensitiva e fala a ofensiva verdade doa a quem doer. Ele trata com “jeitinho”. Ela, uma louca, quer resolver com “tortura” (“A casa caiu”). E com dança “Top Gun”.

“Uma Quase Dupla” é propositalmente desengonçado. É uma caricatura que importa os anos setenta ao universo bucólico interiorano. Tudo é abordado com ironia, batalhas ofensivas e explícito deboche. Conversa-se sobre “relacionamento ser de mão dupla” e seu término por áudio, perseguindo um “serial killer, um assassino em série” a La “Dexter” e “O Silêncio dos Inocentes”, que mata gente chata, vingando-se na mesma moeda. Nós somos conduzidos por pistas, dicas, instintos, trocadilhos e lógicas. Quem é o assassino?

Dirigido por Marcus Baldini (de “Bruna Surfistinha”, “Os Homens São de Marte… E é Pra Lá Que Eu Vou”), o longa-metragem é mais que uma simples diversão. É uma inteligente picardia que une o humor esquizofrênico, histérico, trincado, acelerado, ansioso, imediatismo e depreciativo de Tatá (que repete o que fez em “TOC” – como o esquilo “cafeinado” – quase “indublável” – da animação “Deu a Louca na Chapeuzinho”, de Cory Edwards, Todd Edwards e Tony Leech) com a naturalidade não interpretativa de Cauã (que se torna o próprio personagem – e o Método em seu nível mais elaborado e espontâneo).

No elenco, estão ainda Louise Cardoso, como Marlize, a mãe-coruja de Claudio. Ary França vive o delegado fanfarrão Moacyr, Alejandro Cleveaux é o legista Augusto e Daniel Furlan (La Vingança) interpreta o playboy Dado. O longa conta também com as participações especiais de Augusto Madeira, George Sauma e Luciana Paes. Vá sem medos e preconceitos! “Uma Quase Dupla” vale à pena!


“Sempre quis trabalhar com o Cauã. Adorei vê-lo em cena e descobri a alegria que é estar com ele fora de cena também. Foi maravilhoso vê-lo brilhante fazendo comédia, um lugar onde não estamos acostumados a vê-lo. Aprendi muito com ele “, conta Tatá.

“Há muito tempo tinha o desejo de me desafiar e me exercitar em um gênero que não domino, por isso este encontro não poderia ter sido mais feliz. Tatá é rápida, tem um tempo de comédia impressionante, é uma mestra do ofício. Acho que o público vai se divertir nos cinemas tanto quanto eu tenho me divertido nas filmagens”, acredita Cauã.

“O encontro de dois atores diferentes e talentosos é uma força desse projeto. Acredito que isso deu um charme especial ao filme, junto com a linguagem que brinca com os clichês de filmes de investigação e suspense”, conta o diretor Marcus Baldini.

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