A desmistificação da Bergmania

Por Fabricio Duque


Assistir a uma obra do cineasta Ingmar Bergman é receber uma completa análise cognitiva super-exposta da psique humana. Mas não é só isso. O diretor sueco consegue transcender a genialidade perspicaz de seus filmes pela própria existência com sua sistemática visão, sua precisa autoralidade, sua liberdade criativa e sua hiperatividade em produzir obsessivamente. É um ser inquieto, solitário por natureza (e opção), incisivo nas decisões e intransigente para que o resultado não seja apenas ótimo, mas sim perfeito. Assim é criado a Bergmania, fãs a La Beatles que o idolatram e se influenciam com suas ideias e direcionamentos psicanalíticos-filosóficos. Bergman sabe como ninguém aprisionar seu público em seus filmes, suas histórias, suas histórias, sub-tramas e sub-textos. É o mestre da manipulação mental.

“Bergman – 100 Anos”, de Jane Magnusson, lançado como uma comemoração a seu centenário e exibido na mostra Classics do Festival de Cannes 2018, objetiva não o endeusamento, mas desmistificá-lo. Trazer o elemento humanista. Afastá-lo do pedestal inalcançável de precursor do cinema moderno. Apresentar suas falhas, suas escolhas-crenças, seus casamentos. O foco é o ano de 1957, quando Bergman lança dois filmes, filma mais dois, dirige um telefilme e quatro peças de teatro. Conversando com atores, colaboradores, críticos e historiadores, o filme traça o retrato de um homem obsessivo, instável, difícil de lidar, mas ao mesmo tempo um dos maiores artistas da história da Suécia, e também o único diretor a receber a “Palma das Palmas” no festival de Cannes.

Em 2013, o documentário “Invadindo Bergman”, também de Jane Magnusson e Hynek Pallas, que foi exibido no Festival de Veneza, transpassa as barreiras e diretores famosos “convidados” (que se tornam ferrenhos fãs-cinéfilos) “invadem” a isolada residência de Ingmar Bergman na ilha Farö, no mar Báltico, após a morte do “mito monumental”. “Perdi a virgindade com Bergman”, disse Ang Lee. Esta é uma experiência museu diferente de “Bergman – 100 Anos”. Aqui é um estudo de igualdade. A narração traz o diretor ao estágio comum de “mero mortal”, devido a suas dores de estômago, rotinas obsessivas (como por exemplo comer o mesmo biscoito), “agonia constante” e uma persistente pressão ao lidar com o trabalho e com a perfeição nível “Cisne Negro”.

Nós somos apresentados a um homem que se iniciou na direção aos trinta e oito anos. Um “mistério pelas informações contraditórias”. E “completamente honesto em seus filmes”, “vestindo-se como os personagens”, apesar de seu “egocentrismo inevitável”. Sim, logicamente, Bergman é o centro das atenções. É tudo sobre ele. Sobre traduzir sua vida. Sobre os acontecimentos que o fizeram se transformar no “gênio”. Sobre suas excentricidades e idiossincrasias. Tenta-se entender as emoções. De “como este homem mal vestido e com sotaque se tornou um ícone. Talvez seu olhar vanguardista de enxergar a nudez como “uma receita do sucesso” (em “Monica e o Desejo”).

Bergman impôs-se. Nunca ninguém se intrometeu em seu trabalho. Conquistou liberdade absoluta. Seus filmes eram entendidos como um “panorama medieval da morte” de uma “Suécia brutal obscura”. Era o “poder da insinuação”. Outra consequência do documentário é a especulação projetada. Como uma terapia analítica. Uma confissão cognitiva. Busca-se a definição absoluta. Redonda. Direta. Definitiva. O cineasta é lido pelos temas que aborda em seus filmes: o medo temeroso da morte (em “O Sétimo Selo”), por exemplo. São “tantas crenças erradas”. Tantas “mentiras”.

“Bergman – 100 Anos” é também um auto-retrato de fascinação. Sobre a magia dos movimentos e danos duradouros. Um ser humano que usava a verborragia para esconder a verdade silenciosa. Nos filmes, uma fuga ao mundo ilusório. Que quando escolheu se politizar, defendeu Adolf Hitler (“pelo poder emanado”). Mas a fase foi rápida. E o sueco, ainda que simpatizante, não insere engajamentos e militâncias. Um “mestre mais que Strindberg”. Ele tinha uma “realidade completamente distorcida” com suas “pernas inquietas”, com suas técnicas não convencionais de conseguir a máxima de seus atores e com suas dinâmicas inimagináveis. Que acreditava que a câmera via muito mais que ele. Que adorava os planos fechados da televisão. Que era um “navio de guerra de feminilidade”. E que nunca facilitou a vida para si mesmo.

Seus filmes transmutam-se em sessões de terapia, traçando um diagnostico. “Escrever tinha propriedades terapêuticas”, acreditava. Seus fãs entrevistadores o adjetivam: vulnerável, inseguro, ambicioso, nervoso, atormentado, destemido, orgulhoso, furioso, explorador, torturador, neurótico, intolerante, sensível, preocupado, intuitivo, curiosamente entusiasmado, com ideias bem pensadas e com os olhos sempre semi-cerrados. “A ansiedade faz parte da arte europeia de fazer filmes”, diz-se. Pois é, atire a primeira pedra aquele que se acha normal e artista.

Bergman, o “Rei”, o “Imperador”, o “Papai Noel”, um “monumento carnívoro”, adaptou-se ao tempo. Experimentou a vida e o ritmo Fassbinder. Foi além dos limites. “Se soubéssemos o que queremos fazer, talvez não faríamos nada”, diz. Tinha uma solidão nua para captar as mulheres, a jornada da alma, a membrana da realidade. Fale tudo, mas fale sempre deste “artesão artista”, que no final da vida assistia a três filmes todo dia no lugar que escolheu para viver plenamente seu silêncio, sua verdade.

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