Reminiscências

Por Chris Raphael


“Outono”, a película em questão aqui, é uma homenagem livre a Angel Vianna, bailarina, professora e coreógrafa brasileira, uma das pioneiras da dança contemporânea no Brasil e que no ano de 2018 completa 90 anos. O filme é de Anna Azevedo, inspirado no livro Pequenos contos para começar o dia, de Leonardo Nakamoto. A produção é de Cavi Borges e de Anna Azevedo, e foi realizada em 2015. No elenco, Angel Vianna e Pietro Mario (que faz a narração).

Trata-se de uma alegoria poética sobre o ocaso da alma. Uma fotografia impecável faz a narrativa imagética mesclar as lembranças coloridas de momentos felizes no mar com momentos presentes em preto e branco, ressaltando a nostalgia da atualidade. Metaforicamente, expõe o outono da vida, com suas cenas enevoadas e imagens brancas. O mar é testemunha passiva, que apesar do seu ir e vir, não pode trazer de volta o passado, mas neste contexto, tenta reconstituir a felicidade.

Através de uma fictícia porta envidraçada, ela assiste a tudo, como a representação figurativa de uma espectadora externa que observa a vida alheia, no que tem de melhor. O reflexo no espelho mostra uma personagem marcada de areia de praia e sal marinho, enquanto o abraço do vento forte dispersa tristezas e envolve tudo e todos com o cheiro do mar. Ainda há o que viver, ainda há o que sonhar, como uma carícia no rosto marcado pelo tempo e nas mãos expressivas com gestos de outrora, que é o que faz com que ela possa ser o que naturalmente ela é.

Uma belíssima exposição de personagens maduros, no sentido mais literal da palavra: com acordes melancólicos, abraçando o tempo como a um amigo íntimo e constante, eles estão prontos para ser e viver, o que quer que a vida seja, o quer a vida traga.

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