Parábola do herói

Por Vitor Velloso


Hollywood está se esforçando para criar novas personalidades aos brucutus contemporâneos. Uma pequena análise dos últimos 15 anos nos mostra que essa repaginação está… horrenda.

O século atual não se importa que seus heróis possuam 115% do corpo feito de músculos, o que claro não é o caso do “The Rock”. O ator em questão deve possuir o dobro disso. Vendo as franquias atuais vê-se que o estereótipo oitentista já não cabe mais além da própria piada, como o caso de “Os Mercenários”. Por isso, os heróis da ação atual não necessariamente precisam de força, mas sim velocidade. Vide que as estrelas, em geral, também diminuíram de tamanho, com exceção de Keanu Reeves, mas “John Wick” é quase uma homenagem a esta transição do cinema de gênero.

“Arranha-Céu” é um longa dirigido por Rawson Thurber, também conhecido por dirigir “Família do bagulho” e “Central de Inteligência”, além do clássico (não por méritos) “Com a bola toda”. Logo, espera-se algo… duvidoso. Bom, o que nos é entregue, não é bom, longe disso, porém, tem alguma noção do que deseja. A trama conta a história de Will Sawyer, um ex-soldado norte-americano que perdeu sua perna durante uma operação militar. Agora trabalhando em uma consultora de segurança, ele é chamado para ser responsável pelas atividades, de segurança, do maior prédio do mundo, localizado em Hong Kong. O empresário que está por trás desta construção é um alvo em potencial, então, um grupo de criminosos invade o prédio e põe em risco a família de Will, que residia no local.

Lendo assim, parece que estamos vendo “Duro de Matar”, um prédio, um maluco badass, gente doida atrás de alguém… Mas trata-se de um filme genérico de ação ideologicamente capitaneado por Peter Berg. Piadinhas à parte, este longa realmente parece um longa inspirado no Peter Berg mais atual com “O dia do Atentado” e “O Grande Herói”, com toda sua trucagem estrutural sobre obstáculos na jornada deste herói patriota X. O problema é que aqui, é tudo muito genérico. Os clichês quase que xerografados de projetos similares são jogados na tela sem o menor pudor, massacrando a mente do espectador com uma quantidade de cortes assustadora e uma hiper artificialidade da ação que suspende a experiência do público a uma nova percepção. Da forma como eu disse, parece algo interessante, mas não é. Pois, a construção dessa proposta vertical de se pensar a estética do filme, prioriza diversos elementos em detrimentos de outros. Exemplo, a relação dele com sua família, que não possui nenhuma química, a empatia fica por conta de um carisma que está se desgastando pela minha memória cinéfila afetiva do “The Rock”.

Se o bromance entre ele e o caricato vilão de Roland Moller (é claro que é pleonasmo chamar algum personagem de Roland Moller caricato, mas me permitirei este equívoco), não funciona vê-se grande parte da, já, batida estrutura de super segurança movido por desejos paternos, se perder. Logo, a proposta de Rawson já não funciona nem mesmo dentro da esquematização hiper pragmática de ação e reação que esses roteiros proporcionam. Fugindo à ideia do cinema contemporâneo de usurpar a estrutura dos games, “Arranha-Céu” quer ditar as regras de sua estética, mas não possui bagagem para o mesmo. No meio da maior indústria de filmes do mundo, é difícil sobressair-se com orçamentos estrondosos e produtores que reduzem qualquer complemento a dinheiro e público. É nítido que Rawson é castrado ideologicamente aqui, o que não quer dizer que há muito por vir além do que é apresentado.

E a fotografia digital de Robert Elswit não funciona como o esperado. Elswit já provou seu valor em sua parceria com Paul Thomas Anderson, mas faz este trabalho para provar que muitas vezes diretores de fotografia fazem grandes obras, por serem bem dirigidos. Outras é o contrário, o fotógrafo engole o diretor do filme. Roger Deakins e Denis Villeneuve é um destes casos. O que não é perceptível na parceria de Deakins com os irmãos Coen, onde vemos um casamento extremamente funcional, onde ninguém rouba a cena.

Enfim, o novo filme do “The Rock” é uma apologia ao nacionalismo norte-americano barato e uma obra genérica de ação que nada tem a dizer além de um entretenimento que não entretém.

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