Todas as cores do amor

Por Fabricio Duque


“Salto no Vazio” é um filme apaixonante, não apenas por falar sobre a essência do amor puro em tempos atuais-modernos tão líquidos e frágeis, mas sobretudo por expor ao espectador este sentimento, que é impossível de descrever e de entender. Quando amamos nós nos tornamos desengonçados, imunes, vulneráveis, cegos, alienados, co-dependentes da figura amada, como “um fogo que arde sem se ver” em nossos mundos próprios que de dois torna-se um. Saltamos no vazio sem saber se encontraremos água amortecedora na queda.

É muito mais que um longa-metragem. É um experimento que comprova que somos “xifópagos” que conjugamos idiossincrasias, vontades, ansiedades, loucuras, imediatismos, liberdades assistidas de forma cúmplice e esperada, desejos, submissões, solidariedade, altruísmo, felicidade. Deixando o “verão para mais tarde”, tudo para passar mais minutos, que viram dias, unicamente na presença do ser adorável e suficiente. Não precisamos de mais nada. Estamos plenos.

“Salto no Vazio” ensaia a melhor representação do amor: a de ser cotidiano, rotineiro. Estar longe de quem se ama causa estranheza, rasgação no peito, uma incontrolável saudade, um sôfrego torpor, desesperos, melancolias, desesperanças e a lembrança culposa de se estar construindo outras lembranças futuras na solidão da espera, em meio a prantos inúteis de um mar sempre permanente e furioso. Perpetua-se efusões e cruéis “se”.

Então, soluções aparecem para acalentar e acalmar a alma. São as cartas. Instrumentos românticos que nunca saem de moda. Ouvir novamente declarações de pertencimento forçam as micro-ações mais básicas. É a dose da droga. Nossa morfina. Nossa cocaína. O sol brilha de novo. Os pássaros cantam. E nosso amor ganha o descanso da possessão.

“Salto no Vazio” transcende a própria definição de sua obra em uma poesia-prosopopeia. A narrativa divide-se em capítulos que incluem “beijos azuis”, exposição, “esperas”, cartas e mais cartas de amor de Patrícia ao Cavi (“Lutar judô com você na praia”), “barco parado não faz viagem”, Cannes (“uma vida juntos na cidadezinha no sul da França”) e uma narração pessoal, intimista, minimalista, sensorial, nostálgica, detalhista e adjetivada, como uma confissão do que está dentro do coração. Se fecharmos os olhos, então podemos imaginar a atmosfera etérea-espectro à moda de uma música do grupo irlandês Sigur Rós.

É também sobre direcionamentos, geografias, espaços e “pontos de referência”. Os mapas nos mostram “onde estamos, onde queremos ir e como chegamos”. Suspende-se o tempo do agora para contemplá-lo. Com suas imagens de arquivo, fotos, cicatrizes, folhas no outono. O tempo passa, mas não para eles. E não, este não é uma refilmagem e ou homenagem ao filme homônimo do italiano Marco Bellocchio de 1980.

É uma emocional e cotidiana declaração de um impulsivo-instintivo casal apaixonado sobre a sétima arte. De resgatar a essência classicista de uma liberdade orgânica, metafísica, descontínua e experimental de um Jean-Luc Godard, principalmente pela carta de número quatro com suas fotos da guerra em Aleppo, Síria, onde a “vida não vale nada aqui, nada”.

“Salto no Vazio” é também um épico. A primeira parte da trilogia “Filmes de Viagem”. Uma trajetória road-movie. Que passa pela coragem de Agnès Varda, pelas coordenadas existentes até chegar à pessoa amada que “matará” a saudade, pela linha reta Rio-Cannes, pelo Pico da Neblina. Sim, parece que tudo adia mais e mais o estar completo. Talvez obra de um universo sádico que cria suas comissões separatistas. “Como se determina as fronteiras?”, pergunta-se.

“Quando se deseja ir mais longe e além, saltamos no vazio”. Filmado em seis países (Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Síria, França e Hungria), o filme mistura dança, performance e videoarte mostrando a história de artistas (os “Harry e Sally” feitos um para o outro, Cavi Borges e Patricia Niedermeier) unidos na criação por inspirações, por ausências, por vulnerabilidades, por movimentos, por descobrir o mundo pelo corpo, por Jonas Mekas (e a “reação à vida”), por pontos que se ligam, por iniciações, por mensagens de voz, por passagens e por provas. “O que acontece com momento depois que ele passa?”, uma retórica ainda inexplicável que busca conforto na imagem de Cavi remando.

“Salto no Vazio” são conceituais e estéticos fragmentos reais de amor. Para “sobrevoar”. Para desconstruir com o reflexo na água. Não há mais narcisos. Tampouco vaidades e ou perdas de tempo com pequenos mimos-jogos defensivos. É a própria vida que relembra o Holocausto em Berlim (“Esse labirinto tem saída?” sobre a “sensação sem nome das estúpidas guerras iguais”). É um filme filosofia-afeto. Concretista sobre o abstrato do Rio Spree (“Não se pode mergulhar duas vezes no mesmo rio”), no melhor estilo Kafka de ser.

Como foi dito, este é um experimento de vidas vivenciando momentos. Que não se sabe até que ponto é a realidade do deles e a ficção referenciada. E esta também não seja uma crítica, e sim um terapêutico acerto de contas com o amor, que todo dia tenta uma nova vida à direção certa. “Você deixa sempre um pouco de você onde vai”, finaliza-se. Concluindo, “Salto no Vazio” é uma obra de arte que encontra a perfeita sincronia do salto em um rio com água suficiente para aflorar a paixão e nunca afogar nas estranhezas da relação.


  • Linda crítica!!! Emocionante !!! Sensibilidade e delicadeza descobrindo varias camadas!!! Uma honra e alegria!!! Obrigada Vertentes de cinema!!!!!

  • Texto emocionante!!! revelando muitas camadas do filme!!!! Belíssimo olhar e sensibilidade!!! Obrigada Fabricio Duque e vertentes de cinema por esse Salto no vazio da criação e do amor!!!

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