Os herdeiros do terror

Por Vitor Velloso


O primeiro plano nos mostra uma dedicação em construir metodicamente o que está por vir. Vemos uma casa em miniatura, um lento zoom vai nos aproximando de seu interior, um som desagradável toma conta da atmosfera, os pais de Charlie (Milly Shapiro) entram no quarto, Annie (Toni Collette) e Steve Graham (Gabriel Byrne), para acordá-la. Sua avó faleceu e eles a chamam para o enterro, em família, com seu irmão Peter (Alex Wolff). Algum tempo depois, Steve é avisado que o túmulo de sua sogra foi violado. A partir daí, uma série de eventos irão dar o tom da narrativa.

A direção é de Ari Aster, que estréia com seu primeiro longa, com o pé direito. É difícil tentar adjetivar a experiência de assistir a “Hereditário”, pois, existe uma insanidade e uma falta de controle crescente, que joga o espectador em um caldeirão de estranhezas. O terror da trama, é construído lentamente a partir de pequenas cenas, que nunca mostram a real face das coisas. Nunca abusa do vulgar. Trata-se de uma narrativa descentralizada, que busca se infiltrar na mente de seus personagens, buscando seus medos e suas ansiedades, a fim de trazê-los à tona.

O elemento, família, é aquilo que concentra o mistério da obra. Essa opressão de uma história genealógica, é representado por um brasão da família, que está constantemente presente. Esse peso dramático nas relações dos personagens, para com a morte da matriarca, ou, de suas próprias frustrações diante do mundo, tensiona a atmosfera a uma erupção iminente. Sabe-se que uma hora ou outra, tudo virá à tona, porém não sabemos o que. Nem a natureza dessa verdade. Todas as pistas que nos são dadas, flertam com algum tipo de crueldade, de culpa.

Os planos são lentos, com uma música que mantém a cadência das cenas, mas também, flexiona o ambiente para a emoção que irá reger o processo. Neste quesito, é possível citar “O Bebê de Rosemary”, ou a trilogia do apartamento como um todo, de Roman Polanski. A malha sonora é o elemento primordial para a intensificação do clima. Ao mesmo tempo, zooms lentos, uma paleta de cores morta e esse tom macabro que precisa de um empurrão para se inflamar, nos lembra “A bruxa” de Robert Eggers. A trama se dá pela paciência do roteiro e da direção, sendo necessário um terceiro ato que injete uma dose de adrenalina em suas sensações, para incomodar o público. E acredite, incomoda. O som continua sendo a maior arma do longa. Sons estridentes ganham novas conotações no crescendo sensorial.

A violência é um dispositivo de menor interesse, ela acontece de forma muito pausada, mas sempre contida, quase tímida. Essa postura acuada da agressividade imagética, é reservada para esse estopim no terceiro ato, onde vemos uma sucessão de acontecimentos que irão desafiar a compreensão do espectador, pois esse clímax do filme, passa muito rápido. O estranhamento é insano, diferente e alucinado. Vamos sendo cada vez mais bombardeados com cenas extremamente esquisitas, excessivamente creepys. E alguns arquétipos raramente tocados no gênero, passam a ser pincelados em uma montagem que reduz o tempo entre os planos, cada vez mais. Não há tempo para contemplação, não há mais volta, o terror é real. Ele está presente e já conquistou a todos no cinema. Toni Collette é extremamente assustadora. Suas expressões causam pavor no público. E a menina Milly Shapiro, é realmente estranha. Seu grau de sociopatia, apresentado, a partir de uma inércia social brutal com pequenos lampejos de maldade, e hábitos constantes semi mecânicos, provocam a atmosfera de todas as cenas que a personagem está presente.

Peter, está tão desesperado e confuso quanto a gente, ele tenta compreender o que está acontecendo com sua família após todos os acontecimentos e se culpa por parte deles. É uma vítima muito sólida, pois, auto penitência fragiliza a força de qualquer pessoa. Se em “A Bruxa” os pecados eram as formas mais eficientes da personagem do título, influenciar a família. Em “Hereditário”, são suas fraquezas que são exploradas, o medo é tóxico. E qualquer ser humano diante de uma situação liminar, é reativo. Diante daquilo que não se compreende, recuar nem sempre é uma opção. O credo familiar nunca foi tão insano.

  • Este filme é realmente maravilhoso. Tem protagonistas sólidos e um roteiro diferente, se tem uma coisa que eu não gosto nos filmes de terror atuais, são os screamers, e o que eu mais gosto é o terror psicológico, depois de vê-la você ficara com algo de medo. Os filmes de terror são meus preferidos, é o melhor. Meu favorito é It: A Coisa, acho que o novo Pennywise é muito mais escuro e mais assustador, Bill Skarsgård é o indicado para interpretar o palhaço. It o filme é realmente uma história muito interessante, uma das melhores de Stephen King, o clube dos perdedores é muito divertido e acho que os atores são muito talentosos. Já quero ver a segunda parte.

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