Uma parábola dos limites de um homem

Por Fabricio Duque


Exibido na mostra competitiva a Palma de Outro do Festival de Cannes 2018, “Dogman” é um daqueles filmes representativos do hostil mundo cão. Um universo sem leis morais, cujos personagens sobrevivem cada um como podem. É a verossimilhança da realidade em uma percepção que porta traços verdadeiros demais.

Busca-se conduzir o espectador por uma orgânica e humanizada desumanidade, no melhor estilo às ideias de Aristóteles em que “o caráter fala segundo a necessidade” do contínuo da própria existência e da proteção a quem ama. Um filme que maximiza o conceito popular de que “quanto mais conhecemos os homens, mais gostamos mais dos animais”.

“Dogman” gera o confronto. O embate existencial pelo simples e inquestionável fato de que todos nós somos animais e que vivemos em total prol de nossos instintos. Só que também somos diferentes pelo “presente” adquirido da inteligente consciência. O pensar. Característica esta, paradoxal se analisarmos filosoficamente que nos limita ao invés de libertar.

Se há uma coisa que seu diretor italiano Matteo Garrone (de “Reality – A Grande Ilusão, “O Conto dos Contos”, e ator em “O Crocodilo”, de Nanni Moretti) não quer é a suavização, e assim, constrói um cinema bruto, nu e cru (visto que a primeira cena é o close de um cachorro preso e com raiva). Nós somos imersos sem piedade em um doente e disfuncional universo. Da apatia submissa dos fracos em uma terra-aldeia sem lei versus a perceptível indicação da utilização do poder pela brutalidade violenta dos fortes-ogros.

Marcello (Marcello Fonte), um humilde funcionário  da petshop “Dogman”, localizada na periferia de Roma, se envolveu em um dos piores crimes já registrados na história da Itália. Dominado por um sentimento de vingança incontrolável, ele decidiu torturar, durante horas, um ex-boxeador que atormentava todos os moradores do bairro em que vivia.

“Dogman” é a parábola da transmutação. Do protagonista perdido na hora errada em um incompatível tempo. Que desconcerta pela desacreditada desesperança do futuro. A solução mais viável e “saudável” é a resignação. Aceitar a condição de zumbis sociais, e de escravos das urgências subjetivas de alheios mimados. É uma metáfora de que todos nos comportamos como cachorros raivosos. Se nas redes sociais vídeos mostram animais que tentam salvar humanos, aqui então estes cães interferem em encontrar semelhantes. E ou aqueles que os entenda melhor.

A fotografia saturada potencializa a sensação de desconforto e de não-pertencimento. É um visual amadeirado e de primitiva ambiência e ruína selvagem. Um que de faroeste mais modernizado, como se só reconstruíssem uma parte após bombardeios de uma guerra. Mas longe de ser progressista de um lugarejo em que todos se conhecem, sabendo das condutas características de cada um e das consequências desencadeadas se ir de encontro às “ordens”. Não há moralidades e sim oportunismos de próprios salvamentos (como o tráfego de drogas).

É uma aldeia solidária, cúmplice e de auto-sustentabilidade familiar (como a filha que ajuda na loja – e é protegida pelo pai, no melhor estilo “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni). É também multicultural, unindo romenos e italianos. Aborda-se a normal tipicidade de vidas limitadas. De entender vício psicotrópico de um valentão “bad boy” (relevar o “jeito” – que ganha pela força) e de retroalimentar problemas. Mas também de se divertir com a particular competição de penteados caninos.

Digamos que “Dogman” seja uma versão mais fofa de “Amores Brutos”, de Alejandro González Iñárritu. O filme é um exemplo neo-realista italiano ao fabular a fantasia do querer com a imutável situação do presente. Marcello não consegue se safar e é obrigado a se envolver nos crimes. Seu jeito manso, frágil, apaziguador, medroso e ingênuo (de se importar e sempre fazer o certo) o define como vítima e como vulnerável. Figura fácil, manipulada e intimada.

Mas até quando nosso protagonista resistirá a não se tornar a personagem de Nicole Kidman no fim do filme “Dogville”, de Lars Von Trier? Até quando manterá sua consciência? Marcello sofre com a hostilidade dos outros insensíveis, egoístas e cruéis por natureza, que matam e não ligam, contudo sabe como ninguém domar a raiva (por causa da prática humanizada com os cachorros).

Só que o roteirista não é assim tão perverso. E assim sorteia, ao protagonista, momentos de descanso ao velejar e mergulhar. E ou com falsas sensações de pertencimento ao frequentar um boate. Desta forma, Marcello e seus conhecidos, vivem submundos cotidianamente. E nosso protagonista sofre todo tipo de violência. Até a mais radical. Física e ou moral. A reviravolta surpresa o faz endurecer um pouco mais, mas nunca perder a ternura. Quem é de uma maneira nunca mudará. Nunca será Darth Vader. Recomeça e segue em frente. Com novas ideias e novos negócios.

“Dogman” é um filme sinestésico, fisiológico e visceral. Nós sentimos os medos, as angústias e hesitações, principalmente pela maestria interpretativo do ator Marcello Fonte. O público é aprisionado pelo controle absoluto da direção. Entre as escolhas da vingança premeditada e o “pagar na mesma moeda”; e a conservação da humanidade (a redenção que retorna à jato), a trama parábola nos fornece a moral da história de que no fundo, bem no fundo, ainda há salvação deste mundo estragado que vivemos, tudo embalado com a sinfonia chorosa dos caninos. Além de uma aula de análise comportamental sobre o ser-humano, é uma aula de cinema.


Festival de Cannes 2018: “Dogman”


Do diretor italiano Matteo Garrone (de “O Conto dos Contos“, “Reality – A Grande Ilusão”, “Gomorra”). Ficção. Com Marcello Fonte, Adamo Dionisi, Edoardo Pesce. 120 minutos.


Apelidado de um “western urbano”, Dogman ocorre em um subúrbio italiano em algum lugar entre a metrópole e a natureza selvagem. Marcello (Marcello Fonte), um pequeno e gentil arrumador de cães, se vê envolvido em uma perigosa relação de subjugação com Simone (Edoardo Pesce), um ex-pugilista violento que aterroriza todo o bairro. Em um esforço para reafirmar sua dignidade, Marcello se submeterá a um inesperado ato de vingança.


“Dogman” integra a mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2018.


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