Desventuras de um dentuço travesso

Por Fabricio Duque


A obra conto-de-fadas “As Aventuras de Pedro Coelho”, de Beatrix Potter, escrita há mais de cem anos, é objetivamente infantil, com suas histórias simples, mas sem perder a essência realista, visto que os pais do dentuço mais levado do mundo viraram alimento para tortas. A história ganha versão cinematográfica na direção de Will Gluck (de “Amizade Colorida”, “Annie”) e busca a modernização com seus espirituosos alívios cômicos.

“Pedro Coelho” inicia-se com um número musical, que também busca o humor constrangedor para desenvolver as desventuras do “coelho de jaqueta azul que anda sem calça”. “É preciso sonhar para crescer”, canta-se pop e americanas músicas paródias (dos grupos Vampire Weekend a The Proclaimers, passando por Dave Matthews Band e seu “Crash Into Me”), em um misto de “Glee” com “Mary Poppins” no mundo “desencantado” dos “aparentes fofos” animais humanizados. Tendo na versão dublada, o grupo Rouge, formado por Aline Wirley, Fantine Thó, Karin Hils, Li Martin e Lu Andrade, com “Confia em Mim” e “Bailando”.

“O problema para não engordar é o molho da salada”, diz-se com um que de inocentes piadas já batidas à moda do “é pá vê ou pá comer”; irmãs com uma diferença de “dezesseis segundos” no nascimento; “chicória com escória”; “falar abobrinha”. É um filme sobre tolerar características das idiossincráticas personalidades de cada um, sobre aceitar os “talentos individuais”, sobre lutar pelos direitos (embasando como necessárias as vingativas armadilhas de auto-proteção e batalha). E sobre os variados quadros da pintora-dona (do surrealismo a retratos dos coelhos).

“Pedro Coelho” configura-se como mais um típico conto infantil, cuja leitura com o objetivo de fazer as crianças dormirem. Mas também há uma cruel carga embutida, corroborando o tom sádico de incutir culpas, medos, desgraças e realidade nua e crua aos pequenos pelo pseudo artifício das histórias simples e com desenhos aparentemente didáticos. Dos Irmãos Grimm a Walt Disney. “A verdadeira cicatriz é a de dentro”, filosofa-se.

Nosso protagonista coelho perdeu os pais para um senhor vilão chamado Severino, que os transformou em recheio de tortas. E precisa lidar com a sôfrega resiliente saudade e a latente raiva (da perda da horta-território) que estimula as revidadas de “reprimir o instinto natural de se alimentar”. É um longa-metragem de momentos, pautados muito mais nas aventuras e risos soltos que no aprofundamento do drama propriamente dito, como a cena em que o “inimigo velhinho” expõe o “cofrinho”, gerando “ideias de girino” por parte de Pedro em “enterrar a cenoura”. Sim, é de gargalhar. Muito.

“Pedro Coelho” ambienta bucolismo e interior. Com uma narração sensorial-adjetiva que conjuga contida emoção (sem descambar ao sentimentalismo barato e clichê) e explicativa digressão (em desenhos animados em tons de nanquim que remetem às gravuras do livro original) da traumática infância (“os pais ainda estão no coração”, “mas o sobrinho nem tanto por ser mais distante”). É uma aventura de “recuperar as terras”.

A combinação de animação com live-action aborda desafios, enfrentamentos-armadilhas (à moda de “Esqueceram de Mim, de Chris Columbus) e um acriançado desconhecimento do mundo destes animaizinhos, que chamam ambulância de “caminhão de sorvetes com luzinhas”.

A trama conta a eterna busca de Pedro pelos vegetais cultivados no jardim de Sr. McGregor (Sam Neill), após “bater as botas” (depois de “viver setenta e oito anos metendo o pé na jaca”), que fica ainda mais intensa com a chegada de Jeremy Fisher (Domhnall Gleason), sobrinho e a “versão light do velho”, que “passará uma temporada no calmo campo”. O rebelde coelho e Jeremy travarão uma batalha pela atenção de Bea, a vizinha bondosa e amante dos animais (Rose Byrne).

O filme pulula questões filosóficas, que descomplicam o complexo com a pureza do ponto de vista da infância, como o “porco de dieta, querendo ser algo que não é”, o coelho carente e “controlador, que sente falta de ajudar”, o “Highlander”; e críticas sociais, como o “nepotismo que é praticamente lei” em Londres, especificamente na loja Harrods, as fofocas contadas, idiotas iguais a limitados.

“Pedro Coelho” é sobre animais brincalhões, que têm a “rabugice da família” e que brincam com “a diferença entre o charme e o funk”. Há o galo “marrento” e pai sobrecarregado com tantos filhos, o “roceiro boboca”, a “ópera: música melodramática e inspiradora ao mesmo tempo”, o “marrom com marrom que não é nada fashion”. E há o “metrossexual” e até metalinguagem interativa, quando dizem não querem criar problemas com o público e encaram para a câmera. Tudo é sobre aceitar as diferenças: de que nem todo homem é malvado.

É sobre “compartilhar a terra”. Pedro Coelho e seus amigos representam a versão animaizinhos de “Toy Story” e seu “lider” Woody, com “determinação de um leão e um plano pela metade”. São corajosos, imaturos, puros, inocentes, perspicazes e descolados, não se dão por vencido, sentem culpas e fazem de tudo para consertar os erros, sem esquecer de suas danças sincronizadas à moda “Trolls”. E até mesmo nos convida a fazer turismo pelas ruas e monumentos famosos da capital da Inglaterra. “Quem compartilha o amor nunca perde”, finaliza-se, colando as testas como simbolismo ao perdão.

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  • Muito foda esse filme. Eu considero o Will Gluck um grande diretor de Hollywood, todas as suas obras são ótimas Já quero vê-la no seu próximo projeto, promete muito. Eu considero um dos melhores filmes lançamentos Eu adorei porque a história é uma combinação de live-action e animação inspirada nos clássicos infantis da escritora inglesa Beatrix Potter. É uma boa escolha para uma tarde de filmes. Eu definitivamente iria vê-la novamente e recomendá-la a amigos e familiares.

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