O gosto pelo viver no precipício

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2018, “Minha Filha” traz um estudo de caso intimista e orgânico sobre uma família. De um lado, a ordem. Do outro, o caos. E uma criança de nove anos no meio deste turbilhão de emoções, recebendo uma moralidade disfuncional, que provoca, questiona, causa desconforto e novas sensações neste ser tão essencialmente imaturo e em construção da própria identidade.

É o típico filme submarino, que se inicia na ação. Sempre por dentro, mergulhado nas mínimas características-detalhes que representam intrinsecamente suas personagens. Que aprendem a subserviência resignada como uma luta à sã sobrevivência, para assim não permitir que a loucura as consuma. Uma está presa às sistemáticas idiossincrasias do possível caminho. A outra busca a liberdade desenfreada e infantilizada para fugir da própria realidade e responsabilidade.

A guarda de uma menina está sob disputa de duas mães, Tina, a de criação (Valeria Golino) e, Angelica, a biológica (Alba Rohrwacher), que almeja tê-la de volta. No centro do conflito, Vittoria (Sara Casu) se vê obrigada a lidar com questões existenciais muito acima do seu nível de maturidade prestes a fazer uma escolha que a afetará a sua vida para sempre.

Dirigido pela italiana Laura Bispuri (de “Virgem Juramentada”), “]Minha Filha” é sobre a dualidade conflituosa da existência humana: a maternidade versus a liberdade. O equilíbrio pacífico do viver versus a intensidade de se viver no precipício (e gostar). A filha dividida sente uma inversão de valores, que a desnorteia pela radical tentativa de entender o que deve fazer.

A criadora aceita as consequências do carma, não se importando em cuidar de tudo e de todos. Ela ama sua filha incondicionalmente. Já a progenitora optou pela diversão desmedida e pelo decadente e humilhante submundo de ser uma “vadia”. Tina é a altruísta. Congela a própria vida para ajudar Angelica, que, por sua vez, é mimada, egoísta, passional, bipolar, barraqueira, viciada, prostituída e aceitou sua destruição. Um ser de instintos primitivos.

O longa-metragem busca imergir o espectador na nostalgia, de um pausado e interiorano tempo atemporal, numa vila de pescadores, entre rodeios e animais soltos (cavalos e galinhas, por exemplo). Principalmente pela fotografia solar, desbotada e saturada de Vladan Radovic. Essa ambiência cria o propósito sensorial que nos convida a uma narrativa mais realista, mais palpável e menos fantasiosa. Nós sentimos a espontaneidade-naturalista das angústias, decepções, dos silêncios, das pequenas felicidades, a impulsividade e das cumplicidades passivo-agressivas. Mas também um distanciamento encenado (como o choro mais teatral sem lágrimas) que nos remete ao Neo-Realismo de Federico Fellini.

“Minha Filha” é realisticamente encenado. Assim, suaviza o drama pelo tom de novela, absorvendo clichês como um elemento à favor e não contra (tampouco preguiçoso). É cinema direto. Bruto e cru, porém com a preocupação da parte técnica. Nós contemplamos o relato das dificuldades das personagens. Das bebedeiras, da naturalidade imposta, da ordem judicial, dos pequenos lapsos de humanidade, do retorno à clandestinidade, da vestimenta incompatível na Igreja, dos motoqueiros arredios e marotos, das “esmolas” de doses do bar. É o vício que necessita de alimentação de uma mulher sem noção (que arremessa a “filha” no rio, que a obriga a entrar em um buraco por ser “palito”).

O filme é sobre redenção. Sobre a obrigação da mudança. De um adulto que ainda não cresceu. Uma criança grande. É sobre a não desistência. Sobre não aceitar o desmoronamento do próximo. É lutar até o fim pelo único resquício de dignidade e da última faísca de salvação. Suas personagens estão em mutação. Uma troca-roubo antropofágica. As três tentam conviver com as diferenças das outras e abraçam a oportunidade de melhorar o comportamento de si mesmas. Ora compartilhando influência, ora julgando com super-expostas críticas, ora com café com feijão com remédio vitamina c.

“Minha Filha” é uma aventura. De afiados sarcasmos. De perspicácia espirituosa (“Sou estúpida, feia e inútil? Sim, mas está melhorando”). De permitir o recomeço. De embarcar no catártico caos para renascer. Uma precisa relaxar as tensões. A outra de não ser tão sexualizada e enxergar a criança como uma “bela fêmea”. É uma vida física. Fisiológica. Escatológica. Que tortura cavalos, por exemplo. É um mundo de homens que não precisam mais “reivindicar suas posses”. Sim, a trama constrói uma calma apresentação. Desta forma, inevitável que é, na maioria dos casos, há uma quebra de ritmo, ficando mais arrastado e bem mais explicado. É um filme que para completar o tempo final e achar seu final, perde-se no tom desengonçado e recheado de gatilhos comuns e artifícios de manipulação sentimental, à moda de “Meu Anjo”, de Vanessa Filho, de temática semelhante ao abordar uma mãe individualizada que deixa a filha entregue a própria sorte.


Festival de Berlim 2018: “Figlia mia”


Da diretora italiana Laura Bispuri (de “Vergine giurata (Sworn Virgin)”, cujo filme estreia integrou a mostra competitiva da Berlinale no ano de 2015), 100 minutos. Com Valeria Golino, Alba Rohrwacher, Udo Kier.


Vittoria, de dez anos de idade, está crescendo em uma vila da Sardenha. Um dia em um rodeio, ela encontra a impetuosa Angélica, que é completamente diferente da sua própria mãe, Tina. Vittoria não suspeita que as duas mulheres estejam conectadas por um segredo. Tina visitou Angélica há muito tempo na fazenda degradada, onde Angelica vive uma vida feliz com alguns cavalos velhos e um cão fiel. Tina não está feliz com Angelica e sua filha Vittoria. Em dívida, Angelica decide mudar-se para o continente. Aliviada, Tina oferece seu apoio financeiro, mas não consegue evitar novos encontros entre as duas. Laura Bispuri, mais uma vez, segue sua protagonista enquanto ela encontra, imita e questiona, vários modelos a seguir até descobrir gradualmente quem ela é.


“Filha Minha – Figlia mia (Daughter of Mine)” integra a mostra competitiva do Festival de Berlim 2018.


 

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