Enviadando os rótulos

Por Fabricio Duque


O novo filme dos diretores Claudia Priscilla e Kiko Goifman não é só uma obra política e ou social e ou comportamental e ou só de luta pelo direito de ser o que se é. Não. “Bixa Travestry” é mais que um simples manifesto militante de afirmação. É sobre a potência da voz. Da força das ações. É um compêndio representativo e antropológico sobre um país e principalmente sobre aqueles que o compõem. De politizar o corpo. A aceitação da condição humana.

Ao ampliar a voz da artista multimídia Linn da Quebrada (que já foi personagem nos filmes “Corpo Político”, de Alice Riff; “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano), que se intitula bixa (assim mesmo com ‘x’) e travesty, definições estas que ao serem usadas quebram o status preconceituoso (como os americanos que se apoderaram do termo Queer), atinge a libertadora quebra do enquadramento padronizado de gênero, expondo suas mais viscerais percepções de sociedade enquanto indivíduo firmemente decidido de suas reais vontades.

Exiibido no Festival de Cinema de Berlim 2018, chegando agora no de Brasília, “Bixa Travesty” é discurso articulado, humanizado, físico, orgânico, poético e direto, pela construção da performance. Ainda que seja um filme autossuficiente pela carga enérgica e rasgada do que é dito, a misè-en-scene ajuda a potencializar a experiência sensorial que sentimos ao adentrar neste universo artístico, empoderado, plural e não binário.

“Bixa Travesty” é uma luta constante de normalizar a visão limitada dos outros, como a da própria mãe que ainda a chama de ele. Linn explica que ela é uma bicha por estar satisfeita com o corpo e travesti por montar o imaginário feminino. Ela é uma pessoa. Gênero feminino. Sua vida não foi fácil. Passou por sessões de quimioterapia por causa de um câncer no pênis; assistiu a amiga comer pizza do lixo; dividiu comida por três reais. Tudo exacerbou sua necessidade de urgência. De ser logo. De não mais se importar com a opinião do outro. Sim, a pressão é grande. E não há descanso, nunca, de se desligar do que se é. Até porque está explícito (“não parecem homens e não se vestem como homens”).

Linn da Quebrada (que “é sua maior fã” e que “compra o próprio álbum” e “ouve a própria música”), com sua melhor amiga Lup, não perde o humor, uma espirituosa perspicácia picardia, um sarcasmo pautado no engraçado (a exposição da graça como uma forma de proteção e defesa). É também um filme de confronto. De dizer tudo sem vergonha. De externar detalhes sexuais do sexo de verdade versus o sexo sem afeto nos banheiros públicos. A mãe ouve conformada e quase submissa de que precisa aceitá-la por amor, dividindo o banho e as contradições de um enraizado mundo preconceituoso.

“Bixa Travesty” importa um universo de Ney Matogrosso (este por causa da luva da sorte do próprio cantor, que no final aparece nas fotos) com Dzi Croquetes, mas redesenhado com a latente pulsação do funk, que improvisa espetáculos mais sexuais, à moda de um “Erótica”, da Madonna. É um filme que busca entender a feminilidade do corpo. De existir independente das identidades. De não mais ser a “palhaça”, tampouco boba da corte aos outros mais conservadores. “Luxúria é trava namorar com trava”, diz.

Entre aproximações à política, monstruosidade, transfobia, corpo território geográfico, invenções de um grande amor, medo de ficar sozinha e não pertencer, ser a terrorista de gênero, maquiar-se no espelho do carro da polícia, o longa-metragem transgride quando a integra ao cotidiano. Linn, agora mainstream, que é todas as partes e cacos da junção de ter passado pelas estranhas Lino e Lara. É uma vida improvisada todo o instante. Sem nunca desistir e relaxar. E sempre se “enviadar”. Ela não tem vergonha do seu corpo. Do seu nu. De se deixar aproximar a câmera em seu pênis e no seu ânus, nos arquivos vídeos (muito bem documentado – o “melhor registro”) de uma amiga, incluindo o período que passou pelo hospital. É continuar a “travecar”. “O cu é um reduto e construção”, diz.

Como já foi dito, toda maestria de “Bixa Travesty” está na potência de seu discurso inflamado e articulado, conjugado com a narrativa do próprio filme que inova na técnica, substituindo o classicismo das entrevistas pela resposta também performática em um microfone durante um programa de rádio, que assim retira a prisão de um a um (entrevistado versus entrevistador) para viralizar a voz, perdendo propositalmente o controle de audiência. É compartilhado e sem interferências. Livre em sua essência. Em fotos, shows gravados no Mix Brasil, encontros com outros amigos e artistas, como Liniker.

Concluindo, é um longa-metragem que pulsa verdades, com a hiperbólica sinceridade de uma transmulher negra do subúrbio de São Paulo, também uma artista pop que levanta sua voz. Acompanhada por seu amigo de infância e parceiro, a transwoman Jup do Bairro, seus shows são apoteóticos. Ajudado por figurinos à moda de John Waters e muita técnica, suas performances são mistos de eletromusic contra a ordem de gênero heteronormativa branca brasileira e contra o machismo da cena do funk do país.

Os momentos íntimos revelam seu lado mais gentil: enquanto toma banho ou cozinha com sua mãe, as conversas se voltam para o amor, o racismo e a pobreza. A narrativa insere imagens de arquivo na forma de vídeos caseiros. Começamos a perceber que Linn usa a nudez radical como um meio para minar os papéis de gênero aceitos e potencializar suas convicções sobre o feminismo e sua transexualidade (o papel de uma mulher cis). Ela prefere ser uma mulher com um pênis, cuja identidade de gênero não está vinculada por seus órgãos genitais, mas está em um estado permanente de fluxo.


 

Festival de Berlim 2018: “Bixa Travesty”


Dos diretores Claudia Priscilla (“Vestido de Laerte” e Kiko Goifman (de “Olhe Para Mim de Novo” – com Claudia; “Periscópio“; “FilmeFobia”), 75 minutos. Documentário.


Linn da Quebrada (de “Meu Corpo é Político“, “Corpo Elétrico“).


“Bixa Travesty (Tranny Fag)” integra a mostra Panorama do Festival de Berlim 2018.


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