A procura de novos tesouros

Por Fabricio Duque


Exibido no Festival de Berlim deste ano, “As Herdeiras” pode ser considerado a retomada do cinema paraguaio, e que ainda que sem ajuda financeira, conseguiu ser selecionado e participar da mostra competitiva ao Urso de Ouro. É um filme de camadas, de imersão social, elevando uma sutil crítica pela análise comportamental de um intimista caso.

Pode ser uma potência metafórica que traz questões existencialistas que são interferidas por um mundo limitado, hipócrita, individualista, preconceituoso e que ainda busca viver de aparências, mostrando-se mais aos outros ao invés de se preocupar com a própria vida. É também invasor da intimidade, indicado de forma imagética pela perspectiva da câmera escondida que espreita e observa as naturalizadas micro-ações de suas personagens. Descortina-se com o orgânico e espontâneo. Uma tradução ficcional de contemplação quase documental. Com ou sem peças de ópera.

Dirigida pelo Hermano estreante Marcelo Martinessi, que se desenvolve pela naturalidade das ações simples, condensada com a fotografia saturada ao brilho (aludindo ao primitivo e a mais intrínseca selvageria do ser e do agir) é um filme de ator, neste caso, atriz, da também estreante e autodidata Ana Brun, que se entrega completamente no papel, desenhando uma trama do recomeçar, de abandonar o conformismo do momento e “acordar” quereres e ações.

Chela (Ana Brun, que participou de várias peças no Teatro Arlequín, no Paraguai) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa, por acaso, a prestar serviço de motorista a um grupo de senhoras ricas (a patroa vira “Uber” e ouve particularidades fofoqueiras de “clientes”). Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora.

“As Herdeiras”, co-produzido pela brasileira Julia Murat (de “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”, “Pendular”), constrói-se a humanização da vida comum nossa de cada dia. Entre impulsos, sutilezas, silêncios, verborragias e intermitentes barulhos-ruídos potencializados, como a credibilidade de uma visita a um presídio (o incômodo e a vergonha da primeira vez em uma invasiva revista policial) e ou o olhar preocupado quase chorando. Nós somos imersos na simplicidade do existir da vida como ela é: a companheira presa, a “festa popular” e o TOC da simetria da bandeja.

O longa-metragem é muito mais que uma simples crítica à decadência de nossa sociedade e que apenas sobreviver dentro das regras, é uma obra que transcende por conduzir uma das personagens a uma incondicional liberdade. Se desconstruir e abandonar as angústias da zona de conforto para se redescobrir como ser humano e como mulher. É um filme regurgitofagia, que permite a morte simbólica das amarras e dos medos covardes, estes massificados por tanto tempo, para assim recriar estímulos a novos alimentos.

Aqui nossa protagonista aprende literalmente a viver, tudo por se permitir vivenciar plenamente a experiência ofertada pelo acaso. Sim, o universo pode sim ser fanfarrão quando quer. Ela usa sua submissão resignada, por exemplo, de entender as manias dos outros, como base para acordar a própria força e reconectar a vaidade de decidir novos caminhos futuros, um novo alguém e novos vícios, lidando com maturidade ao contar memórias.

E também perder o medo de dirigir na rodovia (a necessidade a faz corajosa e não pestanejar nos nãos). Há uma calma em suas percepções. Assiste a vida alheia quase apática e invisível, como um capítulo de uma novela. Distante e fantasiosa. Igual a um Clint Eastwood e ou um “Taxi Driver”, de Martin Scorsese. Com um que narrativo do filme “Pela Janela”, de Caroline Leone.

Com um controle absoluto da direção, “As Herdeiras” desenha um cadenciado crescimento. Perde-se aos poucos o apego às coisas materiais. Transforma “pessoas dependentes”. Vende-se tudo. É o conceito máximo do minimalismo, inclusive de se desprender das prisões emocionais, do oportunismo do dinheiro. É um filme antropológico. Que assiste comportamentos sem julgar. Os comentários diversos de uns sobre os outros em um “lindo velório”.

O roteiro objetiva desestruturar padrões. Passado, presente, verdade, imaginação realista, desejo, sedução, fuga e boicote, tudo acontece para “ajudar”, para sacudir, para mudar, para instituir recomeços e para impedir que o medo vença, ainda que por um único momento, a hesitação procure a fragilidade, a catarse do não volta faz com que o lado passional-visceral se sobressaia. É sobre liberdade e sobre seguir o coração. É sobre a totalidade do ser-estar do ser humano, que escolhe a própria vida e congela por hora o estágio obrigatório, diário e cotidiano de se comportar como um indivíduo social.


Vencedor do Urso de Prata Alfred Bauer para Primeiro Filme Que Abre Novas Perspectivas
e de Urso de Prata de Melhor Atriz para Ana Brun, que dedicou “o prêmio a todas as mulheres guerreiras” de seu país) do Festival de Berlim 2018.


Festival de Berlim 2018: “Las Herederas”


Do diretor paraguaio Marcelo Martinessi, estreante em um longa-metragem, 95 minutos. Com Ana Brun, Margarita Irún, Ana Ivanova.

Chela e Chiquita são um casal há muito tempo. herdeiras de famílias abastadas no Paraguai, vivem confortavelmente há 30 anos. Ao longo dos anos, adaptaram-se papéis fixos e padronizados. Chiquita é extrovertida, a responsável por gerenciar suas vidas. Chela, por outro lado, reluta em deixar a casa, preferindo passar o dia no cavalete. As dificuldades financeiras as obrigam a vender alguns de seus móveis herdados. Quando Chiquita é enviada para a prisão por dívidas, Chela fica de repente deixada sozinha. Ela usa seu antigo carro para fornecer um serviço de táxi para senhoras mais velhas e ricas no bairro. Em seu novo papel de motorista, ela conhece uma das filhas dessas senhoras – a jovem Angy. O encontro atrai a Chela a redescobrir seus próprios desejos.

O filme recebeu financiamento do Torino Film Lab em 2015, prêmio aos melhores projetos cinematográficos independentes, e do World Cinema Fund. E também foi escolhido pelo projeto Résidence do Festival de Cannes, que providencia hospedagem a doze cineastas estrangeiros realizando seus primeiros filmes. É também a estreia cinematográfica de Ana Brun, atriz autodidata, que participou de várias peças no Teatro Arlequín, no Paraguai.


“Las Herenderas” integra a seleção competitiva oficial do Festival de Berlim 2018.

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