Uma Radiografia da Cidade Maravilhosa

Por Fabricio Duque


“Vende-se esta moto”, do diretor estreante Marcus Faustini, é acima de tudo uma homenagem ao Rio de Janeiro. É uma conexão poético-popular, por sua narrativa amadora de cinema direto com o discurso mais declamado. É um poema contemporâneo que integra o espaço ao indivíduo social. Aqui, o filme divide-se em núcleos que se completam e interagem com os problemas vividos de moradores de comunidades, estas portais completos de comportamentos típicos. Estas “zonas de opressão econômica” são traduzidas pela humanidade, pelo cotidiano não violento e pelas relações afetivas. Seu roteiro quer a utopia da imagem, preferindo a linguagem conceitual que a forma ilusória de artifícios visuais. É cru quando desenvolve seu material bruto orgânico.

Selecionado para a mostra Novas Rumos do Festival do Rio 2017, este é um filme de amigos, que se unem para colocar em prática a máxima do fazer cinema. Como a produção de Cavi Borges, da Cavideo; a música de Toni Platão; e os atores João Pedro Zappa (que também estrela “Gabriel e A Montanha”, de Fellipe Gamarano Barbosa); Vinícius de Oliveira (que ficou marcado como a criança que busca o pai em “Central do Brasil”, de Walter Salles); Silvio Guindane (que aqui personifica o discurso, trazendo a passionalidade de uma moderna Madame Satã da Lapa do Rio de Janeiro), Mariana Cortines (que é o ponto de equilíbrio ao protagonista), Guti Fraga (que poetiza as mazelas e sofrimentos – sempre com positividade), Priscila Lima (que mostra que o “azul é a cor mais quente”).

A sinopse nos conta que Xeu e Lidiane terão um filho. Ela faz pressão para que ele venda sua moto e consiga outro emprego. A notícia da gravidez e a visita de Xeu a um primo na Maré trazem instabilidade para a relação. São contos humanos que se desenvolvem em comunidades, espaço e ambiente comum e entendido de seu diretor-escritor, diretor teatral e ativista cultural, que dirigiu peças de teatro e o documentário Carnaval, bexiga, funk e sombrinha (2006) e que tem uma coluna no jornal O Globo.

“Vende-se esta moto” é sua voz. É a possibilidade de fornecer vozes sem a necessidade de ter que abordar a violência nas áreas mais sócio-economicamente limitadas. É um filme livre, despretensioso, que não se importa em explicitar ângulos mais caseiros de câmera e ou improvisações de seus atores. Como foi dito, a essência é seu conceito. O discurso hesitado que confronta o próprio Glauber Rocha é sua condução à mitigação da própria estrutura de criar. Sim, vemos aqui a desconstrução padronizada do próprio cinema. É humano por potencializar suas falhas, fragilidades, urgências, decisões, limites financeiros. É um cinema que se faz com resistência, com garra e com cinema.

Na coluna de oito de agosto de dois mil e dezessete no jornal O Globo, Marcus Faustini disse que se deve “manter a curiosidade com a cidade”, “encarar a vida urbana apenas a partir dos afetos e visões de mundo”. “É preciso estar por dentro da cidade para reconhecer novos movimentos que alimentam a esperança de vivermos de forma diversa e menos desigual”, complementa-se. “Vende-se esta moto” retro-alimenta-se da cidade, enxergando no Rio de Janeiro um lugar que precisa ser explorado, não se importando como. Há felicidade nos pequenos momentos na Maré e na Lapa. Seu diretor usa e abusa dessa qualidade de captar instantes observados, de romancear o banal, de aumentar a importância do comum.


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