Um Filme Tolerante à Intolerância

Por Fabricio Duque


O tema de seres humanos que praticam a violência pelo viés gratuito, já abordado no romance distópico “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, que ganhou versão cinematográfica nas mãos de Stanley Kubrick, e no universo de Michael Haneke em “Violência Gratuita”, volta a ser acordado em “Intolerância.doc”, o mais recente filme da diretora documentarista Susanna Lira (de “Positivas”, “Damas do Samba”), que se desenvolve por estudos de casos trágicos acontecidos na cidade de São Paulo em três vertentes intolerantes: torcedores rivais de jogos de futebol, homossexuais e punks versus skinheads. Busca-se responder a pergunta: “O que motiva os crimes de ódio e a intolerância dentro da sociedade brasileira?”.

Na primeira parte, nós temos os times de futebol Palmeiras contra Corinthians. “Mancha verde” versus “Gaviões da Fiel”. O documentário pontua questões pela condução passional-incondicional da paixão de seus torcedores que “entram para ajudar seus times pelo aspecto social e pela cativação de ser alguém importante”, entendida, ora debatida, pelo “olhar da segurança pública” da responsável geral da Delegacia de de Crimes de Intolerância, que se comporta quase como uma experiência “Minority Report”, por intentar impedir premeditadamente algum início de confronto e “emboscadas”. O time de cada um representa “tudo” para eles.

Aqui é analisado o porquê do excesso da violência, dos ânimos exaltados, do vandalismo, da ira desmedida-radical, do ego da briga. Um destes torcedores explica que a violência é “lutar pelo poder” e que aumentou porque a “torcida organizada abriu mão da violência”, porque a torcida “é mais fraca que o Estado, mas não ao outro adversário”. “Batemos pelo prazer de bater. A adrenalina, a auto-afirmação de estar naquele grupo. Rivalidade é para se impor”, diz-se.

A fotografia desfoca a imagem, mais para proteger que propriamente instituir uma estética visual cinematográfica. A câmera precisou vivenciou por dentro. Ser um deles. Correr junto em público. Torcer ao lado e de frente. Não há foco que se salve. O filme, que se intercala por reconstituições em traços-desenhos-animados maniqueístas, pretende transpor este amor “tão grande pela torcida”, entre imagens de televisão, arquivos, entrevistas e bastidores encenados. “Sem o Palmeiras, não teria vida”, diz-se.

A narrativa oscila entre realidade temática e o drama sentimental. Um quando atenta-se aos fatos e à comoção natural. No outro, quando manipula a emoção do espectador ao potencializar o sofrimento clichê da mãe depondo à câmera pela carga confessional-terapêutica (e olhando no celular a foto do filho que já morreu enquanto vai ao jogo de ônibus excursão) e ou pela descrição mais encenada da Promotoria do Ministério Público (“Eles não cooperam com a Polícia. Preferem resolver as dívidas na rua”) e ou do amadorismo do registro do “pessoal da quadra” e ou “camisas que ficaram como lembranças”. A morte de um “infeliz” sociopata, alienante no próprio nicho vivenciado, reverbera uma “sucessão da vingança da vingança” e “golpes fora de combate”. “Morreu porque foi alcançado”, resume-se.

A segunda parte é sobre o universo LGBT. Nós conhecemos o caso de Renata, uma transexual que foi espancada (porque “é assim e estava lá”) quase até a morte e que agora luta por seus direitos de ser e de transitar livremente. “Meu corpo é militante”, diz. Uma inferência é o documentário “Entre os Homens de Bem”, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, que aprofunda a questão da homossexualidade e deputados evangélicos. A “caminhada pela paz” levanta a voz de respeito aos seres “não binários”. A intolerância também causou a tragédia de Edson.

A terceira parte aborda a “gangue de carecas do ABC” que pregam a “supremacia nazista”, que fazem campanha para o Jair Bolsonaro e que potencializam preconceitos contra até mesmo punks mais pacíficos (um motivado a entrar na polícia). Shows de rock “anarco-punk” são mostrados pelas lentes olho mágico “go-pro” e têm seus participantes “fichados” para proteção (deles mesmos). Os skinheads contam para a câmera, orgulhosos, histórias das brigas, pregam o ódio (e a “aniquilação do outro”) e dizem que “batem pelo simples prazer de bater”. São os neo-punks (“contra-cultura”) contra os neo-nazistas (“fascistas e agressivos para impor as ideias”). Eles ouvem “o mesmo som, só que com outra ideologia”.

“Intolerância.doc” mostra e mostra casos e motivos, mas mesmo assim não consegue aprofundar a objetividade das razões intolerantes. É, não foi desta vez que conseguimos captar a essência animalesca, impulsiva, instintiva dos indivíduos que reinam impunes, altivos e preconceituosos em nossa sociedade. Não, o filme até que tentou sim, mas é complexo demais esta radiografia antropológica patológica. Um filme humanitário, não julgador e tolerante à intolerância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados