A Busca Obsessiva Pela Transcendência

Por Fabricio Duque


É inegável aos filmes que contam histórias biográficas perpetrarem a estrutura de novela (com seus núcleos; elipses temporais; descansos cênicos pela trilha-sonora; conflitos de efeito; planos e contra-planos de edição ágil; reviravoltas mais óbvias e palatáveis ao grande público; mitigação dos silêncios; urgência na resolução dos problemas e trágicos acontecimentos; uma maior superficialidade interpretativa; aprofundamentos temáticos pontuais) quando suas narrativas são construídas. Ainda que partes específicas da vida do homenageado sejam escolhidas, os sub-detalhes que intrinsecamente são incorporados já representam um excesso de informações a seu desenvolvimento contextual.

“João, o Maestro”, do diretor Mauro Lima (de “Meu Nome Não É Johnny”, “Reis e Ratos”, “Tim Maia”), vive este limbo entre a sensação e o sentimentalismo; entre a emoção natural da música clássica e o desdobramento ficcional das situações reais, e busca o significado exato, pela literalidade explícita do dicionário, da etimologia semântica da palavra paixão, que se apossa de guisa arrebatadora, entusiástica e obsessiva na impulsividade extra-física do biografado, o pianista João Carlos Martins.

Quando criança, João Carlos Martins (interpretado por Davi Campolongo na infância; Rodrigo Pandolfo na fase jovem; Alexandre Nero como adulto) foi considerado um prodígio do piano. Aos poucos, sua fama ganhou os noticiários e levou o músico à Europa e a outros países da América do Sul. Estabelecido como pianista de sucesso, na fase adulta, sofre um acidente que prejudica o movimento da mão direita. João tenta se reestabelecer e, enquanto isso, apresenta-se em concertos para uma mão só (“Só para Mão Esquerda”, escrito por Maurice Ravel para Paul Wittgenstein que perdeu o membro direito na Primeira Guerra Mundial). No entanto, um segundo acidente retira os movimentos da mão esquerda, o que faz com que ele, mais uma vez, tenha que se reinventar.

“A dor é o único caminho que conduz à perfeição”, teatraliza Oscar Wilde na frase-resumo introdutória do filme. Sim, quanto mais nos doamos a nossas funções, a nossos quereres, a nosso dom, mais conseguimos desenvolver nossa excelência e maestria. Sem dor, não há ganho. Sem luta, não há vitória. Sem dedicação exclusiva, não há transcendência. Toda entrega necessita transpor o impossível, dedicar-se ao sacrifício físico à moda de Opus Dei e superar todas as facetas da própria existência. Quem não se lembra do jovem músico Andrew Neiman em “Whiplash”, de Damien Chazelle; e ou da bailarina Nina em “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky; e ou “O Solista”, de Joe Wright. Todos querem a perfeição sobre-humana.

Aqui não poderia ser diferente. A repetição exaure, provoca e se conecta ao próprio mundo individualista de transe cósmico-psicodélico, quase autista, de tocar as “pausas” e os “silêncios”. A história é contada em três tempos. Infância, recém fase adulta e a maturidade à velhice (atual por imagens reais). Os causos-conceitos desta vida obstinada, mesmo que livres, pró-arquitetados e propositadamente floreados, servem para enaltecer a figura de gênio de inteligência superdotada do homenageado (que tem “duas mãos tão diferentes iguais a duas pessoas”), um especialista “possuído por forças superiores estranhas” do músico barroco, o alemão Johann Sebastian Bach. O positivo e unilateral viés não incomoda, até porque sempre se deve escolher os melhores momentos de uma vida, não é mesmo?

Sua narrativa ambienta-se por ‘travellings’ detalhes, com uma fotografia, saturada a cor amadeirada, que conjuga nostalgia e concretismo do agora. “João, o Maestro” representa fragmentos, memórias estendidas, recortes do passado, elipses e digressões. O bullying; os cuidados médicos; as aulas de piano com exigentes professores (destaque ao sempre irretocável ator Caco Ciocler); a perda da virgindade em um puteiro argentino; as apresentações-concertos ao público (aplaudido de pé); a vontade pelo futebol; suas mulheres; a ansiedade curada instantaneamente pela leitura de livros específicos como “O Domínio dos Nervos”, de Orison Swett Marden; o filme “Orfeu Negro” no cinema; a anfetamina. João, submisso a sua paixão, foi ensinado a “não reproduzir”, mas a sentir quando “tocar duzentos anos de Bach”. “Toque as pausas. Molde o silêncio. É o que faz você de diferente do outro. Cause sensação”, diz-se.

“João, o Maestro” não deixa de criticar a falta de ajuda do Governo Brasileiro pela Cultura quando o pianista ganha apoio da Argentina. O filme é envolvente e sóbrio, principalmente pelas cenas musicais que arrepiam e causam uma emoção natural não manipulada e ou caricata, em que os dedos nas teclas do piano transmitem credibilidade pelo cuidado realista da veracidade do tocar. João acredita nele e todos também. E se “comporta como um viciado” que usa a música com excessos. Chega a ser um altivo ingênuo de “retórica misteriosa”, quase adolescente nos “limites do mundo dele”, ora incrementados, ora desestimulados. Ele “não foi educado a se relacionar”.

Sua trajetória de sucesso, que quando toca faz “fogos de artifício pipocarem”, viaja a Washigton, a Buenos Aires, a casa de show Carnegie Hall (patrocinado por Eleanor Roosevelt), a Berlim, à festa da NBC, a Bulgária, a New York, a Miami, a Londres. Mas aos poucos, talvez pela duração estendida do filme, quase duas horas, seu equilíbrio narrativo perde ritmo, nivela-se pelo forçado e mergulha em gatilhos comuns e clichês desnecessários como a mulher em casa cuidando do filho e ele frustrado andando sem rumo pela rua.

João reinventa-se. De pianista de duas mãos à maestro com mais de mil e quinhentos concertos pelo mundo. Ele nunca desistiu. Sempre determinado, lutou por mais chances mesmo com as constantes limitações. Sempre retornou. O “monstro” nunca abandou a vida que escolheu. Mas descobre que “corpo não é máquina”. Gravou as obras completas de Bach para piano. Ele sempre regeu sua vida com todo amor passional e incondicional que existia. “Dor é verdade”, diz-se com “mágica da paciência”. Adotou músicos de uma orquestra. João Carlos realiza também, na Faculdade de Música na Faculdade da Amazônia (FAAM), um programa de introdução à música com jovens carentes. “João, o Maestro” é biográfico e objetiva a história genérica com pontuais aprofundamentos.

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