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A Língua Hipotética do Final Feliz

Por Fabricio Duque


A arte do cinema é, acima de tudo, sobre contar histórias, todas essencialmente observacionais, únicas e interessantes. “Futuro Perfeito”, estreia na direção de um longa-metragem da alemã Nele Wohlatz, eleva esta característica ao metaforizar o querer e o poder ser com o tempo verbal que expressa uma ação que começará no futuro e que será concluída em uma determinada parte do futuro. Só que aqui, o presente momento é o período imediatista, sonhador, urgente e fugaz que projeta o imaginário futurista aos sonhos, desejos, liberdades, felicidades e ou fracassos defensivos, ora com modificação, ora com terapia, ora com adaptação, ora com resiliência, ora com resignação, mas tudo sem covardia, apenas limitações típicas, a fim de se construir a trama perfeita da própria vida.

Não há como negar uma quase explícita semelhança, que se percebe mais como homenagem, à estética narrativa do cineasta Hong Sang-soo que desenvolve suas histórias pela leve e ritmada presença do tempo e do acaso, e por “consertar” ações e reviravoltas de seus personagens, que são marionetes-papéis de um roteirista que muda humores ao “sabor do vento” ou de uma cerveja ou de um café.

Xiaobin (Xiaobin Zhang), uma jovem chinesa de 17 anos, está perdida em um mundo novo. Após se mudar para a Argentina sem falar nenhuma palavra em espanhol, ela busca um rumo para seu futuro. Poucos dias depois de sua chegada, novos caminhos já vinham sendo traçados: ela já tinha um novo nome, Beatriz, e um emprego em um supermercado chinês. Ao se matricular em uma escola de línguas, a jovem vai aos poucos aprendendo novas palavras, ao mesmo tempo em que seu futuro é delineado.

Inicialmente, a câmera estática, retrata uma jovem, em uma entrevista, que mais parece a de funcionários de um aeroporto julgando suas necessidades de ficar no país deles. Nós somos ambientados em detalhes-informações. De encontrar a família pela primeira vez. As primeiras atividades quando chegou no país: dormir, comer, estudar. O aprender espanhol no “supermercado do tio”. E principalmente as dificuldades da língua e da comida (“típica da Argentina é o churrasco”), que limita, desestrutura, causa intolerância nos outros e quase faz desistir.

O cinema tem outra característica. Despertar a sinestesia de nossas memórias. Na cena em que, ainda, Xiaobin, entra em um restaurante, e seu medo a desespera por não entender, ainda, nada da língua, e por encontrar a intolerância do outro em não a ensinar, realmente aconteceu comigo. Quando viajei a New York pela primeira vez para estudar, em meu primeiro dia acabado de chegar, excitado e agitado, deixei as malas no hotel e fui almoçar na Times Square. Lembre-se: primeira vez e com um vulnerável nervosismo sobre-humano em desligar o português e ativar o inglês, um completo alienígena em terra estranha. Então, entrei no restaurante, solicitei o cardápio, tremi, travei, pedi desculpas e saí correndo para apontar o dedo nos ingredientes de um Subway subterrâneo e vazio próximo dali. Não havia ninguém na loja. Final das contas: almocei e ainda fiz meu primeiro amigo. O funcionário, ultra perspicaz, entendendo meu drama, disse que já tinha ido ao Brasil e assim tudo começou a fluir.

Tudo é novo. Xiaobin está perdida e com vergonha. E assim, o único sanduíche (de “presunto e queijo”) que consegue torna-se seu amuleto repetitivo. Sua primeira vitória. Ela vai galgando as dificuldades. Entra no curso de espanhol (com atividades práticas da aula) após ser despedida do trabalho. Neste ponto, o encenado tom anti-naturalista utilizado causa estranheza, mas seu uso é proposital e entendido com maestria no final. Beatriz, já rebatizada com “nome espanhol”, encontra um indiano que quer “seu Facebook”. Ela esconde dinheiro como proteção. Sua mãe “arruma contato de namorados”. “Casamento é para toda vida”, diz.

“Futuro Perfeito” retrata o cotidiano com sensibilidade, sutileza, liberdade, e sentimento sem ser sentimental, por um tempo quase pausado em silêncios imersos do mundo da protagonista e em aprendizados técnicos de conversas de um curso de línguas em que a realidade é conduzida.

O filme também discute a raiz nacionalista de um povo (que naturalmente “não gosta de estrangeiros”), que mesmo mudando-se a outro país, por necessidade, impede-se, com engessamento, de aprender a nova língua para não esquecer da terra natal. Beatriz, em uma cena, para “lavar roupa” com o namorado, briga em mandarim. Ninguém entende. Não é traduzido.

Outros atores-personagens estrangeiros são inseridos em outras línguas, com o intuito de ressaltar a “tecla que está sendo digitada”, como Nahuel Perez Biscayart (de “120 Batidas por Minuto”), que “finge que fala chinês” e “ensina como um ator faz para chorar” entre a “fronteira com o Uruguay”, com o mesmo “presunto e queijo no pão” e a chuva que cria a poesia do conceito.

“Futuro Perfeito”, em associação com Gustavo Beck, é um filme “se”, que representa o hipotético, a digressão futurista, a imaginação emocional personificada de outras realidades, a reconstituição cerebral, o teatro terapia. Trabalha-se com o que se consegue. É sobreviver para manter o sonho e o lugar objetivado de morar e para despertar a confiança, com posse de “personagens-presentes” que ajudarão nossa protagonista a não mais “Não imaginar um final feliz”, não mais vitimado e sem perspectivas, não mais uma mendiga sem oportunidades em uma terra opressora quase existencialmente apocalíptica, mas sim “com uma câmera pessoal turística, trêmula e sem foco”. Ah, e com a “armadilha para pegar o gato”. É um filme único. Uma obra-prima. Um pequeno (por ser curto na duração – apenas 65 minutos – um pouquinho mais de uma hora) grande filme (em seu resultado). Premiado no Festival de Locarno 2016 em várias categorias, incluindo Melhor Primeiro Filme. Mais que recomendado.

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