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A Solidão do Nada como Projeção do Tudo

Por Fabricio Duque


“Cada Vez Mais Longe”, dos diretores Eveline Costa e Oswaldo Eduardo Lioi, apresenta-se como uma sensível e sutil metáfora ficcional à crítica real do assoreamento da Baía de Sepetiba (que nós espectadores só percebemos no final). Aqui, o espectador é imerso na ambiência do universo único, próprio, intimista, pessoal, contemplativo e observador de dois personagens que lutam para sobreviver. Enquanto ela espera (quase uma turista da própria vida), ele (um pescador) precisa ir “cada vez mais longe” a fim de conseguir fisgar algum peixe e alimentar sua amada.

O filme constrói sua narrativa existencial com o nostálgico e bucólico elemento temporal de natureza integrada (principalmente pelos pássaros que sobrevoam passado, presente e memórias) por uma poética fotografia lúdica de ângulos conceituais, orgânicos e não convencionais. Entre remendar a rede, “crochetar” (faz e desfaz um crochê – sua única distração naquele lugar), silêncios ouvidos ao redor, descansos livres-tediosos e o querer acompanhar seu amor, Isaura (a atriz Branca Messina na juventude) resigna-se e aceita a simplicidade do amor pleno de só ter seu nome no barco (rebatizado) e de “tesouros” achados (a taça de cristal, o anel), à moda de uma “excursão Titanic” pelo “pirata” apaixonado João (o ator Fernando Alves Pinto), que promete trazer todos os peixes do mundo (afugentados em águas mais fundas) caso ela pare com essa mania.

“Cada Vez Mais Longe” é sinestésico. Nós sentimos a água do mar nos dedos. Do sol que esquenta sem queimar. O barulho das ondas e do cálice. Dos barcos. Das gaivotas. Nós ouvimos os gritos contidos do medo da projeção. Nós entendemos a relação solitária, fugitiva, auto-suficiente e co-dependente deles que vivem nesta pacata região litorânea, quase pós-apocalíptica. A necessidade do que vai (“só encontra o que quer em mar mais aberto”) e do que fica, aos moldes de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Marcelo Gomes. A ação do movimento versus a inércia do tédio. A liberdade do navegar versus a vulnerável prisão para mitigar a saudade. E a esperança que nunca morre: “O mundo vai melhorar”. Não se deixa o lugar para trás. Impossível não explicitarmos Serra Pelada e a geografia caseira do individualizado Eldorado.

Ela pressiona o confronto. Ele rebate com o silêncio. Ela pulula caricaturas definidoras (“Homem é tudo igual”). Ele reage com condescendência para agradá-la. São náufragos simbólicos que permitem liberdades poéticas gerando micro loucuras retro-alimentadas, permissivas, resilientes, reclamadas e cúmplices.

“Cada Vez Mais Longe” cria no meio outra metáfora: a do paralelismo, conjuga lembranças, desbravamentos, andanças, libertações, prestações de contas, catarses, abandonos terapêuticos. O presente é interpretado pela atriz Neila Tavares, que confronta a própria solidão amalgamada e massificada pelo tempo. A vida passa. E ela só tem o nada, sua posse do tudo. A água “some”. O solo transmuta-se. O tempo é personificado. Os caranguejos continuam andando para trás e se escondendo no mangue. Ainda há a vida, depois nem mais o nada.

O filme, exibido na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes 2015, de viés conto existencialista à moda de “Limite”, de Mario Peixoto, reverbera a mensagem do recomeçar do nada mais uma vez. De deixar o passado para trás. De aceitar o presente, ainda que destruído e sem futuro. De que não há origem da “lama medicinal”. De que agora o lugar do amor pleno não passa de um “grande cemitério de raro beleza”. E que para sobreviver, a solução mais adequada é “esquecer o abandono”.

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