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A Vilania em um Mundo Politicamente Correto

Por Fabricio Duque


Desde a parábola bíblica dos irmãos Caim e Abel, a história da humanidade sempre imprimiu um romântico, filosófico, fantasioso, limitado, unilateral e controverso maniqueísmo da maldade versus bondade. Em gêmeos univitelinos então, esta questão é amplamente segmentada, não possibilitando o meio termo. Nós podemos recordar da novela “Mulheres de Areia” e das irmãs Ruth e Raquel com personalidades opostas. E ou de “Gêmeos – Mórbida Semelhança”, de David Cronenberg. Mas a percepção da complexidade do universo em que vivemos fez com que nossa ingenuidade-inocência fosse mitigada e transformada no padronizado politicamente incorreto.

Esta premissa é exatamente o pano de fundo que a franquia de “Meu Malvado Favorito 3” abraça, dirigido por Pierre Coffin e Kyle Balda, e traduzido de “Despicable Me” (que literalmente seria “ Eu, Desprezível”). Lançado pela Universal Studios e Illumination Entertainment, a animação mostra um supervilão dos velhos tempos que escolheu não mais a vilania e se tornou um “fofo” pai de uma família, que aprendeu a amar as três meninas, ajudado pelos Minions.

“Meu Malvado Favorito 3” revisita a atmosfera dos anos oitenta (aos moldes de referências cinematográficas a “Pixels”, de Chris Columbus – diretor este de “Harry Potter” e “Esqueceram de Mim”) pelo vilão da vez, Balthazar Bratt, um ex-ator (abandonado por seus fãs e pela mídia) mirim e astro de TV, que foi um típico malvado bem-sucedido e agora, crescido, volta “ultrapassado” (com vento nos cabelos) à ativa (mas sem esquecer dos detalhes comportamentais do passado, como a trilha-sonora “Bad”, de Michael Jackson – seu “Moonwalk” e seus clipes milionários e conceituais, como “música de assalto”). Ele vai perturbar a vida de Gru e sua família. Em meio a tudo isso, Gru também vai encontrar o seu irmão gêmeo, Drew (Dru), criador de porcos, com “cabelo macio e sedoso”. “Aqui é uma Capela Suína”, diz um vestido de preto e o outro de branco. De novo, o maniqueísmo monocromático.

Só mesmo quem viveu os anos oitenta para entender a liberdade com que se pensava e agia sobre as coisas. Não havia a patrulha que há hoje. As roupas eram mais brilhantes, mais estampadas, até mesmo bregas, como as famosas ombreiras e pochete. Mas ninguém se importava com isso. Apenas a diversão das “competições de dança” e dos passos imitados já se bastavam à felicidade plena. Era uma época mais simples, menos exigente.

A animação utiliza-se da combinação de picardias, sarcasmo e humor mais infantilizado (“sempre vai ter doze anos”), mais inocente, mais escatológico, mais intuitivo, mais impulsivo e menos influenciado com o mundo adulto (com o intuito de se aproximar das características preponderantes das crianças). Mas a infinidade de sacadas que o roteiro desperta faz com que a experiência não seja só dos pequenos.

“Meu Malvado Favorito 3” tem chiclete como arma; cubo mágico como casa; o glitter ao som de A-Ha; o globo de espelhos; “meu vídeo cassete” como expressão; a música “Xanadu” e “Physical”, de Olivia Newton-John, para malhação; a guitarra como instrumento à música “Jump”, de Van Halen; a festa na praia como diversão ao som de Ricky Martin; a nova chefia “007″ da AVL; o luau de lua me mel; o Poker online; a mãe “perua” com “gatos fortes e malhados” que se “arrependeu” na escolha do filho; e o pai, “o terror careca”. E ainda tem a felicidade dos Minions achando que terão novamente o “mestre do mal”. “A vida de crime acabou”, diz para “ficar bem, juradinho”.

Nos anos 1980, Balthazar Bratt fazia muito sucesso através de sua série de TV, onde interpretava um vilão chamado EvilBratt. Entretanto, o tempo passou, ele cresceu, a voz mudou e a fama se foi. Com a série cancelada, Balthazar tornou-se uma pessoa vingativa que, nas décadas seguintes, planejou seu retorno triunfal como vingança.

Gru e Lucy são chamados para enfrentá-lo logo em sua reaparição, mas acabam sendo demitidos por não terem conseguido capturá-lo. Gru então descobre que possui um irmão gêmeo, Dru, e parte com a família para encontrá-lo no país em que vive cantando Elvis Presley. Com ambiência mais ao pastelão, com música típica de faroeste, “ensina-se a arte da vilania” a um “desengonçado” aluno. Procura-se unicórnio.

“Meu Malvado Favorito 3” separa personagens para desenvolver núcleos. Há o Gru com o Dru. Há a esposa que investe na naturalidade de ser mãe das meninas. Há os Minions que “abandonam” o “mestre” e galgam novas aventuras, como um tempo na prisão e apresentações no estilo de “The X Factor” (reality show musical competição da televisão britânica criada por Simon Cowell para encontrar a próxima superestrela da música), com cartaz na parede de “Sing – Quem Canta Seus Males Espanta”, animação de Garth Jennings e Christophe Lourdelet.

Aqui, a história, que “escalpela de rir”, mostra que “pai é quem educa” e suaviza a decepção das filhas “donzelas puras de coração” (no melhor momento “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni e ou “Traumas”, cantado por Roberto Carlos).

Então, o mundo politicamente correto não pode mais ver a maldade. Tampouco a fantasia. Muito menos o saudosismo. Não mais acreditar em unicórnios e na ingenuidade. Não mais “agir escondido da mulher”. “A vida é injusta. Você quer um unicórnio e ganha um cabrito”, filosofa-se. O filme critica a sociedade do espetáculo de Hollywood por esquecer rápido demais de seus “astros”. “Hollywood é uma cidade de fabulistas. Seus moradores vivem de inventar histórias”, trecho do livro “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind.

Entre robôs laser e músicas “Into the Groove”, da Madonna; “Take My Breath Away”, de Berlin; “Take on Me”, de A-Ha; “Sussudio”, de Phil Collins; “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; “Money For Nothing”, de Dire Straits; “Hug me”, de Pharrell Williams, podemos dizer que “Meu Malvado Favorito 3” é um filme musical, importado pela sonoridade naturalmente sensorial e emocional. Um gatilho comum que sempre funciona. Aqui não seria diferente. Concluindo, um filme recomendado, mas que não tem mais a graça dos Minions.

“O Gru foi mais fácil, já estou no terceiro filme e a voz já está na cabeça. O desafio realmente foi o Dru, que é um registro mais agudo, são alguns tons acima, uma coisa mais animada, mais leve”, diz Leandro Hassum que dubla a versão brasileira.

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