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Amores Em Tempos de Internet

Por Fabricio Duque


Há muito o cinema brasileiro deixou de ser um mero gênero nacional e tenta galgar outras diversificadas vertentes, experimentando narrativas que vão da independência ao comercial, do conceitual ao palatável, muito baseado em uma estrutura mais hollywoodiana de “fórmulas” de sucesso, que é percebida e retro-alimentada como um filão fidedigno de arrebanhar público. Os espectadores são alinhados por uma cumplicidade e por um comodismo de uma manipulação visual já repetida e sem chances de dar errado. Assim são suas comédias românticas, que tentam a sinestesia emocional de uma afinidade subjetiva.

O argumento é básico: comédia cotidiana de situações com romance, muito provocado pelo acaso do amor à primeira vista que confronta uma massificada auto-crença. Apesar da atração incondicional-mútua óbvia entre os dois “pombinhos”, não se envolvem romanticamente por algum fator interno ou por alguma barreira externa, como estarem em classes sociais diferentes e ou já em relações amorosas com outras pessoas. E depois de inúmeras cenas que buscam potencializar a comicidade, eles descobrem que são perfeitos um para o outro, apesar de suas diferenças, idiossincrasias e preconceitos.

É a famosa síndrome “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare (mais trágica), e depois, contemporâneo, do final feliz (para sempre como “Cinderela”, “A Bela Adormecida”, “A Bela e a Fera”, “A Pequena Sereia”) de “Disney de ser”, em que se mitiga a realidade do pós relacionamento (o convívio do dia-a-dia) para apenas enaltecer a fantasia do momento e da passionalidade do querer.

No filme em questão aqui, “Amor.com”, de Anita Barbosa, estreante na direção de um longa-metragem, após ser assistente de direção das comédias “Se eu fosse você”, “De Pernas Pro Ar”, “Linda de Morrer”, “S.O.S – Mulheres ao Mar 2”, “Eu Fico Loko”, além dos dramas “Assalto ao Banco Central”, “Chico Xavier”, corrobora todos os clichês, chavões e gatilhos comuns deste já explicado gênero da comédia romântica.

Em “Amor.com”, o romance é contado pelas “flechas do cupido” que “atingiram” dois vlogueiros (blogueiros que transmitem conteúdo em vídeos) de dois mundos tão diferentes: o meio da moda e o meio nerd. A “futilidade” versus “inteligência”. Katrina (a atriz Isis Valverde – que geri uma atuação moldada em afetações caricatas e explícitas a Hugo Gloss e à personagem Ferdinando, de Marcus Majella), a “garota da internet”, dita tendências “katrinadas” no mercado brasileiro por seus populares vídeos na internet e com sete milhões de seguidores.

Fernando (Gil Coelho, de “SOS, Mulheres ao Mar 2”, da diretora Cris D’Amato), por sua vez, tem um canal de videogames que ainda não é muito famoso, mas que já está fazendo certo sucesso (com cinco mil seguidores), e vive, “anti-profissionalmente”, na casa da mãe, recebendo “lanchinho”. Eles se conhecem por acaso, quando Katrina precisa de ajuda para evitar que algumas fotos dela nua se espalhem pela internet (inevitável não referenciarmos a “TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva”, dos diretores Paulinho Caruso e Teo Poppovic). Ele, um “deus gênio da internet” “salva” a existência “momentânea” dele, e rapidamente eles apaixonam-se. Entretanto, os mundos bem diferentes em que convivem logo se tornam um grande problema.

A narrativa do filme de “história de amor” pode ser entendida como uma novela (mais parecida com “Malhação”), por causa de sua explícita e patrocinada propaganda de marcas famosas (aqui, a Seda) e por sua estrutura amigável de participações interpretativas especiais, que incluem Hsu Chien (diretor de “Ninguém Entra, Ninguém Sai”), assessores e diretoras do Festival do Rio, como Liége Monteiro e Walkiria Barbosa (esta também como produtora). Anita trabalha há anos como comissão de seleção do festival carioca. Há no elenco ainda Joaquim Lopes, Marcos Mion e Carol Pontes (esta que interpreta Roberta, a irmã de Katrina, como Heloisa Tolipan).

O longa-metragem importa da internet a estética típica, que é apresentada visualmente ao espectador, com suas telas interativas de mensagens, vídeos do youtube, desfiles de moda e programações computacionais hackers, e busca aproximação com os “diferentes” e “estranhos” geeks, que “tiram a sorte grande” de namorar “deusas lindas”.

“Amor.com” busca a critica à futilidade do mundo da moda e da internet (que cria uma pressão pela “fidelidade do público com a frequência dos vídeos”), que “impede a pessoa de ser ela mesma”, importando-se mais com os “brindes da festa” (no melhor estilo “Diabo Veste Prada” – até seu final é parecido com o filme de David Frankel). “Só pega modelo” e “Ganha dinheiro para ser simpática” são algumas das frases empregadas, com limite aceitável, lógico. Nada muito polêmico.

O filme apresenta-se pelo plausível, pela recepção razoável. Nada é muito aprofundado. Os conflitos precisam ser de fácil entendimento. Nivela-se pela simplicidade óbvia, de inocente cumplicidade perante seu público, por discursos de efeito e conflitos com rápidas resoluções, em ações-reações “awkward”, propositalmente desengonçadas.

Sim, “Amor.com” posiciona-se, com firme intensão, como um produto mais hollywoodiano visando sem questionamentos a data dos dia nos namorados. É um filme sessão da tarde para adolescentes “internetescos”, que não precisam tanto dos dramas dos “adultos”, com música pop, que inclui “Beautiful Lie”, do grupo Republica). “O que eu mais gosto é, realmente, a história de amor entre eles e a diversidade dos mundos. O da Katrina é isso que estamos vendo, cheio de glamour. O dele é um quarto, uma festa cosplay underground. É bem complicado. Mesmo nós, que não somos blogueiras, já sofremos com isso, porque a internet está ao alcance de qualquer um para o bem e para o mal também. Não importa se temos três ou cinco milhões de seguidores, a fragilidade é a mesma. E vou usar uma frase do nosso filme: ‘quem fala que não se importa, é mentira’. Todo mundo liga para a questão da imagem”, finaliza a diretora Anita Barbosa de 38 anos em entrevistas fornecidas e encontradas na internet.

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