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Um Woody Allen com Clichés Disfarçados

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

A característica principal número um do cinema é sem dúvidas a de contar histórias, que podem ser escolhidas em uma gama infinita de narrativas, tudo, claro, mediante a capacidade-dom criativo de cada realizador, que tem em Woody Allen o mais unânime, e de inquestionável qualidade. O diretor americano influencia novos cineastas como Noah Baumbach (de “Frances Ha”), que desde seu primeiro filme segue seus passos e sua estética cinematográfica típica e que virou sinônimo de gênero. Muitos  dizem que é uma fórmula de sucesso, porque não dá trabalho. Não, não é verdade.

Pelo contrário. Quando se opta por esta vertente, o diretor se não souber desempenhar bem sua função, pode dar um “tiro no pé”. Até porque quando se trabalha com uma comédia de situações, e que cada cena desenvolve o próximo rumo, sem subterfúgios visuais ilusórios, é preciso muita técnica para nos prender à trama. Sim, patologicamente, nós já nascemos fofoqueiros e excessivamente interessados pela vida alheia.

Em seu novo filme “The Meyerowith Stories (New and Select), que concorre a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, repete a repercussão polêmica pela compra da Netflix (que de novo foi vaiado quando a logo apareceu na primeira exibição pública a convidados e imprensa aqui em Cannes) e ter sua exibição exclusivamente na plataforma online, sem escurinho e tela grande, a menos que o espectador tenha uma televisão de muitas polegadas em casa. Mas vamos abrir um parênteses. Podem anotar: ninguém entra para perder dinheiro. A polêmica será a porta ao cinema da Netflix.

Sim, mas voltando ao que interessa, o filme, em questão aqui, corrobora a obsessão de Noah em querer ser o novo Woody Allen, que aceitaríamos piamente se fosse apenas por homenagem. Mas não. O novo cineasta prefere “pegar emprestado” o estilo. Em “Frances Ha” acertou, só que neste o deturpa com atmosfera de clichê disfarçado.

“The Meyerowith Stories (New and Select)” busca a naturalidade cotidiana de uma família, que mais parece ter saído do filme “Os Excêntricos Tenenbaums”, de Wes Anderson, aprofundando suas idiossincrasias, idiotices, futilidades, superioridades, orgulhos, invejas, individualismos, medos, defesas, rancores e uma liberdade à moda de um filme da Nouvelle Vague (a nudez natural e aceitável, como exemplo do filme ficcional “Pagina Man” – um pornô, amador, trash e cultuado pela família), em uma fotografia nostálgica de atemporalidade “hipster”, que é confrontada com os “vidros” espelhados dos prédios de Manhattan (referenciando a linha pelos livros da biblioteca sobre Nova York  dos anos 1900, 1930 e 1960).

Recorre-se, em sua narrativa, a verborragia intermitente (das conversas) que faz com que cenas ainda faladas sejam interpeladas por novas. Busca o humor “maduro” e a espontaneidade, porém, a nós, soa um tanto quanto teatralizado e forçado. A pergunta que o espectador deve estar fazendo agora: e Adam Sandler como está? Está bem. Não vemos uma interpretação (em que toca piano, canta, berra, dirige, manca, foi “criado por animais”, mas está “diferente”) e assim desde “Embriagado de Amor”, de Paul Thomas Anderson, ainda que o ator teime em conservar “muletas” de seus filmes mais comerciais.

Mas é ao espectador inevitável não entrar na história apresentada que confronta a incompatibilidade da “old age” com a juventude integrada à modernidade, que metaforiza que nós sempre seremos velhos, porque sempre existirá alguém mais novo, mais bonito, mais carismático e mais famoso (como o concorrente da exposição e ou Sigourney Weaver.

“The Meyerowith Stories (New and Select)” é sobre encontros e novas histórias, que nunca acaba, tanto que parece o seriado, também da Netflix, “Grace e Frankie”. Esta família representa a típica família norte-americana com suas conspirações, seus segredos, suas habilidades, seus dons, seus constrangimentos, suas intervenções e suas consequências “despirocadas”, aniversários. “18 anos. Uma pessoa agora”, diz-se.

Entre inúmeras referências cinematográficas, que inclui “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, o longa-metragem, contado em capítulos irônicos é sobre acertar, sem sensibilidades aguçadas, as contas com aqueles que sentimos “engasgo na garganta”. É sobre gerações, sobre revisitar memórias e perdoar (até mesmo entregando o óculos para o implicante membro familiar) para seguir adiante.


Festival de Cannes 2017: “The Meyerowitz Stories”


Do diretor americano Noah Baumbach (de “Frances Ha“, “Enquanto somos Jovens“, “A Lula e a Baleia”, “O Solteirão”, “Mistress America”, “De Palma”, “Margot e o Casamento”), 110 minutos. Com Dustin Hoffman, Adam Sandler, Ben Stiller, Emma Thompson.

A comédia dramática conta a história de dois irmãos (Sandler e Stiller) que voltam à cidade natal para um evento que celebra o trabalho artístico de seu pai, Harold (Dustin Hoffman). A família afastada reúne-se em Nova York, e relembra momentos marcantes. Emma Thompson (Harry Potter) também está no elenco, interpretando a mãe alcoólatra dos protagonistas. O original é “Yeh Din Ka Kissa” – em tradução livre do hindi “A História do Dia”.

“The Meyerowitz Stories” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


Assim como aconteceu com o filme “Okja”, de Bong Joon-ho, a Netflix comprou os direitos de exibição mundial do filme. O longa-metragem passará por alguns festivais (incluindo Cannes) e depois chega ao catálogo da plataforma.

A escolha na competição gerou polêmica pelo filme que será exibido somente online e em streaming e não nos cinemas franceses. “Qualquer filme que desejar competir a Palma de Ouro deverá ser primeiro distribuído nos cinemas franceses. Esta nova medida será aplicada a partir da edição de 2018 do Festival de Cannes”, escreveu a organização em um comunicado. O CEO da Netflix, Reed Hastings, não gostou nada da mudança, que afeta diretamente o serviço de streaming, e escreveu no Facebook: “O establishment está se juntando contra nós. Um ótimo filme que as salas de cinema não querem ver entrando na competição de Cannes”.


O diretor Noah Baumbach, de 47 anos, nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, 3 de setembro de 1969). Conhecido pelo seu envolvimento com Mumblecore (“geração do resmungo” em tradução livre), um movimento artístico do cinema independente nova-iorquino. Ganhou força após 11 de setembro e tem como “pai” o cineasta Andrew Bujalski e seu filme “Funny Ha Ha”, de 2002, considerado um marco no genêro. Em 2005 foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo filme “A Lula e a Baleia”. Foi casado com a atriz Jennifer Jason Leigh e atualmente está com Greta Gerwig, a atriz que estrela praticamente todos os seus filmes.

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