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Mais uma parábola irretocável de Lav Diaz

Por Fabricio Duque

“Meu cinema é livre, não é longo. Não quero comprometer minha alma dentro da indústria do cinema, tampouco virar parte de um negócio. Quero fazer cinema do meu jeito. Meu processo de criação flui enquanto filmo, sempre uma única tomada (não repito planos). Valorizo o espaço físico como um elemento importante. A natureza é um grande ator em meu cinema, que acredito ser parte do ciclo da vida, tentando entender a vida e tentando espelhá-la em meu trabalho que simplifica o cinema, um tempo de reflexão direto e sem adornos, e sempre em preto-e-branco”, diz o diretor filipino Lav Diaz que busca explicar suas escolhas cinematográficas, que são conhecidas pelas longuíssimas durações. “Evolução de Uma Família Filipina” tem quase onze horas de duração.

Em seu mais recente filme, “A Mulher Que Se Foi”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2016 e exibido no Festival do Rio do mesmo ano, segue corroborando sua veia artística de prolongar o tempo (desenvolvido como uma pausa editada) em planos longos, estáticos e sem cortes pela liberdade contemplativa da vida, mesmo reduzindo drasticamente sua duração para apenas quase quatro horas. Precisamos deixar claro que, de forma alguma, os longas-metragens são lentos, muito menos este em questão aqui.

“A Mulher Que Se Foi”, baseado na obra de “God Sees the Truth, But Waits”, de Leo Tolstoy, também reitera a ambientação política contando a história (“Não um conto de fadas”) de um passado que se torna “presente” aos olhos do espectador (“olhados” pela polícia uma aula metafórica de “pretérito e futuro”). Em 1997, a pena de Horacia Somorostro (a atriz impecável e irretocável Charo Santos-Concio), imputada injustamente durante trinta anos (já acostumados “lá dentro” no Instituto de Correção Para Mulheres, chega a seu fim (“O que fazer lá fora? Liberdade? Deixar a família daqui?”).

Ao sair, reencontra sua filha (com seu “preconceito burguês”), mas descobre que seu marido não está mais vivo, e ninguém sabe do paradeiro de seu filho. Enquanto isso, seu ex-amante rico, que, como ela descobre, foi responsável por sua falsa acusação, está em prisão domiciliar com os amigos, suspeito de haver perpetrado múltiplos sequestros. Ela começa então a planejar sua vingança, o “fogo na consciência”, a loucura e eternidade, pela reza, espera, cumplicidade e oração.

Entre componentes da água e estudo do inglês, entendimento do outro semelhante, vítimas de seqüestradores, ginástica na escada, tudo é arquitetado premeditadamente com silêncio, calma, preparação, segurança, cuidado, segredo, sistemática e hesitação para confrontar e resolver as pendências do passado (e suas descobertas trágicas). Do “campo” (trabalho ruralista) à cidade. Lá fora, na jornada “road movie”, que parece mais aprisionada, o mundo é mais barulhento, confuso, agitado, desesperado. Horacia alimenta mais e mais a raiva por receber a informação de que seus entes queridos morreram no tempo que esteve presa, e necessita urgente retornar ao interior e à naturalidade do cotidiano.

“A Mulher Que Se Foi” é uma épica peça dramaturga que busca iludir o espectador com a realidade que mais se assemelha a um documentário. É a jornada de uma vida. Horacia é exposta a confissões, suicídio, filho desaparecido, a filha que nunca a procurou, a culpa, à tentativa de perdão, e sua obsessão faz com que se integre à escuridão da noite. A narrativa intercala personagens-tipos: errantes, à margem, que buscam a sobrevivência e a esperança, por crenças religiosas e milagres esperados.

Até que uma pessoa torna-se mais “ficante”, talvez pela forma como se defende da vida: catarses e convulsões. A vida por sua vez faz com que Horacia estimule sua solidariedade humanista-social ao ajudar outros pessoas, não se importando com as estranhezas, roubos e “demônios” internos. Sem esquecer do doce filipino “Balut”, que é feito de feto de pato cozido, ligeiramente depois da gema, e ligeiramente antes de formar asinhas, bico, olhos.

O filme é uma poesia visual, pelo jogo de luzes e sombras (“Batman”), e condensa um conteúdo crítico, espontâneo de “professoras que contam histórias”. Horacia vira aos poucos uma santa, ajudando aos pobres, excluídos e necessitados (que em sua visão materna: pode um destes ser seu próprio filho). E sendo “paga” com danças e com a ajuda do acaso. Ela hesita o querer. Pensa se é certo. Se vale à pena. A cada ação boa (a bondade extraordinária vivenciada), Horacia salva as impurezas “demoníacas” de sua alma. E “vencer o inferno”.

Não há clichês, gatilhos comuns, orgulhos em “A Mulher Que Se Foi”. Apenas o realismo sensível de uma câmera subjetiva, que capta a sinestesia da dor deles e de seus silêncios, o embate questionador religioso, o ódio, as conversas com tom confessionário-terapêutico, os barulhos turísticos da cidade, a intolerância às diferenças. Tudo que quer é a “confissão” para acalentar a ira construída. “Somewhere… not over the rainbow”, a performance.

O longa-metragem é uma livre representação, uma parábola cirúrgica que tece e estuda o caso comportamental do ser-humano. Uma obra-de-arte de filosofia direta, articulada, temporal, e com domínio máximo da direção. Sim, Lav Diaz é um gênio. Não se pode questionar.

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