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All The Single Ladies

Por Fabricio Duque

“Waiting For B.”, documentário nacional dos diretores Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel, que integrou a mostra competitiva do Festival do Rio 2017, pode ser traduzido como um estudo de caso de antropologia comportamental-cultural tendo como pano de fundo os fãs de Beyoncé, do antigo grupo Destiny’s Child, que acompanharam semanas (dividindo a “barraca com as bichas”) na porta do estádio Morumbi, em São Paulo, em 2013, para que fossem os primeiros a entrar no show e ficar “colado” à grade. Aqui, busca-se responder o que representa a cantora americana (e sua música que é venerada como a “celebração da música pop”) a esta geração, que chega a gastar setecentos reais por um ingresso e dormir dois meses antes.

Estes fãs, que se aglutinam em equipe (uma forma de proteção contra os perigos da madrugada) são olhados com curiosidade pelos olhos (por causa da efeminação “carão drag” – chamados de “viados”, pela reação de efeito “barraqueira”, por “não se importarem quanto tempo ficam na rua” e por idolatrarem a “entidade”, adjetivo que define a artista afro-descendente).

Ser o primeiro da fila representa a “fama”, ainda que por quinze segundos, de “aparecer” e “Expressar eles mesmos”, seu “universo queer”, seus gostos, seus amores, seus covers (“seis anos sendo B.”), suas performances, suas identidades transitórias. Eles em “bando” perdem o medo (muito também pela presença da câmera) em se “soltar”, “cantar” outros homens, maquiar-se, andar desfilando como se estivessem todo o tempo em uma passarela da moda, ensaiar as músicas e dançar as coreografias, copiando os bailarinos oficiais dos shows anteriores.

A narrativa apresenta-se como um videoclipe pela montagem em cortes rápidos, acompanhando a vida pessoal do dia-a-dia destas personagens reais. “Tudo gay. Qual hetero ficaria aqui?” pergunta e complementa “Sofremos preconceito por sermos gays, negros. Até a Beyoncé quer ser branca. Se hoje fosse tempo de escravidão, ela seria escrava”. Eles riem. Felizes como crianças desmedidas, “pintos no lixo”, e usando todos como “produção”.

Eles são fãs incondicionais, exagerados, hiperbólicos, passionais, “overreacted”, espalhafatosos, que idealizam a paixão, aceitam que a artista quase não faz “meeting” e elevam o “strike a pose” de “Vogue”, da Madonna como “Priscilla, a Rainha do Deserto”, de Guy Gross. E a cada comentário-colocação-elucubração, reverberam o gosto mais acentuado pelo exterior (nada no Brasil agrada e as dificuldades dos artistas daqui), e assim se traduzem como uma geração perdida, alienante e subjetiva. Talvez, porque o próprio documentário tenta questionar e rebater com a referência a paixão “hetero” dos torcedores por seus times de futebol. Apenas outra forma de perspectiva.

Eles, na fila, que mais enxergam como “férias”, vivenciam, entre picardias, afinidades, brincadeiras, zoação, a utopia da família que os aceitam como são. Sem cobranças, sem preconceitos, sem o julgamento dos que não entendem (a própria mãe que se incomoda quando o filho “diferente” trata como “tesouro o ingresso do show”), sem hipocrisias, sem mágoas, sem humilhação, sem surras dos pais, sem a rejeição e sem as inúmeras tentativas frustradas de agradar ao próximo intolerante. Durante este período de “fuga” da realidade, eles lutam com obstinação corajosa entre o trabalho, ajudar os parentes, a noite na rua e a “fase difícil” do jogo de futebol (quando precisam “maneirar” os trejeitos gays – estão podados: sem dublagem, sem coreografias e com a normatividade heterossexual).

“Beyoncé foi para mim uma fonte de inspiração para aprender inglês e seguir na faculdade. Ela é uma religião”, diz-se. “Waiting For B.” é sinestésico. O público sente a emoção, o cansaço, a ansiedade, a espera do show, a energia e a paixão desenfreada deles, principalmente quando fazem de tudo para tirar uma foto com a artista “entidade” ou quando um conta que “vendeu um apartamento para estar presente ali”. “Ela é tudo que a gente gosta”, dizem em coro, como torcedores. Só que neste caso da música.

“Waiting For B.” foca sua trama na espera, talvez pela falta de acesso, e quando o show começa a história avança ao final, o pós evento. Estão “destroçados”, “acabados”, “borrados”, “suados”, tristes por terem que voltar à realidade, mas satisfeitos por terem tido esta história para contar e por ficarem perpetuados pelas lentes da câmera. É orgânico, interativo entre eles, de gueto, particular, único, de identificação pela aproximação, caseiro, pessoal e altamente recomendado. O que você faria para ver de perto o seu ídolo? Venceu o Prêmio da Audiência de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema Queer 2016.

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