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A Paixão Nacionalista-Religiosa de Mel Gibson

Por Fabricio Duque

“Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido”, trecho do livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. 

Quando o novo filme de Mel Gibson, indicado ao Oscar 2017 em seis categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Mixagem de Som, Edição de Som e Montagem), acaba, o espectador percebe, com raiva, que perdeu duas horas e vinte minutos de sua preciosa vida. Sim, “Até o Último Homem”, é, no mínimo, descartado, se por algum acaso, o caro leitor-cinéfilo não for um ferrenho radicalista-nacionalista-utópico-americano.

O longa-metragem é uma sucessão de clichês que busca conjugar a fase “armamentista” de Clint Eastwood (e seu “American Sniper” com “Flags of Our Fathers” e “Cartas de Iwo Jima”, estes dois de 2006 – ano que curiosamente o cine-biografado Desmond Ross – um médico que se recusou a matar durante a guerra – faleceu) com praticamente todos os filmes oriundos do gênero de guerra. Nenhum gatilho comum foi poupado.

“Até o Último Homem” pode ser “degustado” como uma parábola de viés ético-bíblico. Nosso protagonista, um “objetor de consciência” resolve, voluntariamente, ir à guerra para “cooperar” e “salvar vidas” (e nunca pegar em armas e em hipótese alguma “matar”, visto que é “um dos mandamentos mais importantes” – o pecado mais sério, levando todas as crenças religiosas. É “adventista do sétimo dia”, não “trabalha no sábado” e “oferece” de bom grado “a outra face”. Mesmo sabendo que “a guerra é um conjunto de circunstâncias diferentes”. Todos “tentam tirar as convicções dele”, mas nosso “Homem-Aranha” não desiste, aceita calado, não delata ninguém, e é “tratado como um criminoso por não matar”. “Orgulho? Teimosia?”, e claro, “protegido pelas leis constitucionais do Senado”.

Sua vocação sempre foi ajudar o próximo, controlar a violência intrínseca à alma, proteger a “mãe do pai bêbado que batia nela”. Ele encontra a enfermeira perfeita, a mulher de sua vida, torna-se médico, alista-se no exército e embarca em uma jornada épica-sobrevivente de uma vida que é posta à prova quando as provações de Deus ficam mais pesadas. Trocando em miúdos, Desmond Ross, personagem real cujo filme foi baseado, é a personificação de Jesus Cristo. Pode ser considerado um “covarde”, um “louco” e que desperta o deboche (e a ira) alheia. Não, ele não “ouve a voz de Deus”, apenas conversa com o Criador e “apenas acredita no que acredita”, sem questionar, igual a Maria que recebeu a graça de ficar grávida do filho do Senhor. Inevitável não referenciarmos ao filme russo “O Estudante”, de Kirill Serebrennikov, por elevar a filosofia existencialista-psicológica de Dostoiévski.

“Até o Último Homem” é o reverso de “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg. Aqui, ele, um único homem, um “Highlander”, guiado pela sorte de ser o protagonista e pelo versículo Salmos 91:7 que diz “mil cairão ao seu lado e dez mil a sua direita, mas tu não serás atingido”. Cada vez, o tom novelesco, clichê e dramático é potencializado a uma manipulação de efeito sentimental em que a emoção é reverberado fácil demais. O “último homem”, o mais nacionalista, quase um robô Wolverine, é interpretado pelo ator Andrew Garfield, que não se dá o trabalho nem de forçar algumas reações mais naturalistas, optando pela simplicidade da atuação preguiçosa “covarde” e pela falta. Sim, definitivamente, é muita responsabilidade para um único homem.

O longa-metragem equilibra-se pelo anti-naturalismo convicto. Diálogos, ações, reações, a presença da música, tudo é utilizado de forma previsível, desgastando o sentido ao longo da duração narrativa até encontrar em uma desengonçada experiência de inocência-ingênua diretiva (que soa muito iniciante), como quando os recrutas quase riem do sargento que grita em tom picardia com eles, então, assim, é desencadeado no espectador a percepção caricata do humor e não do drama objetivado.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas, porém, durante a Batalha de Okinawa, Desmond trabalha na ala médica e salva mais de 75 homens, sendo condecorado. O que faz dele o primeiro opositor consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

Logicamente, precisamos reiterar que é um filme americano homenageando a todos os americanos que “serviram o país e lutaram pela vitória”. Outro sim. É um filme incrivelmente pró-Trump e Bush Filho. E cada vez “afunda” mais e mais no melodrama açucarado, que se caracteriza pelo exagero de situações violentas e patéticas, como os olhares acusadores em câmera lenta e ou “por levar a moralidade dele como se fosse uma medalha de honra”. Outro definitivamente. É um discurso ultra-mega-inflamado ao nacionalismo crônico, quase alienado, em acreditar que a guerra precisa existir. Qual o propósito? Ego? Vingança? Poderio? Ou tudo junto e misturado?

Corta. Desmond embarca ao Japão. E nesta parte, é quase duro de aguentar o fragilizado roteiro. “Os inimigos são animais fedorentos, sorrateiros. Os japas não se importam se vivem ou morrem”, diz-se. Nossa, sério? Queridos soldados, vocês sabiam o que é uma guerra, não sabem? Então por que florear e sentimentalizar? Diferente de “A Paixão de Cristo”, que tem um Mel Gibson sanguinário e polêmico na direção, aqui, “Até o Último Homem” chega a ser um filme “fofo”. Claro, com incursões mais clichês de vísceras e partes decapitadas. Do lado japonês, depois da Serra Hacksaw, o inferno, o fogo e os demônios. Desmond é um herói sem arma.

Vamos lá, outro parênteses: “Como Hollywood ainda gasta dinheiro com filmes assim? Obra palatável para não fazer o cérebro pensar?”. Irrita pela quantidade de gatilhos comuns apresentado por segundo, como “Em época de guerra, os pais enterram seus filhos” no meio de uma batalha à moda de um jogo de videogame, em que antigas desavenças viram amigos “deixados no orfanato”, íntimos demais, e a pausa cinematográfica para o sofrimento, com a guerra acontecendo e morto nos braços.

Nosso salvador “fantasma” volta pelos feridos, não desiste, pede a Deus para “salvar mais um” (à moda de “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg) e salva um batalhão inteiro, sozinho (e alguns inimigos – assim como em “Sob Pressão”, de Andrucha Waddington, a ética médica prevalece: “fazer o bem sem olhar a quem”). Não é “spoiler”, é a história real. A água limpa o sangue, a bandeira branca, a morte da tradição. E no final, a realidade encontra a ficção com depoimentos dos verdadeiros personagens reais, que se emocionam ao som de uma música de efeito que aumenta o tom.

Concluindo, nós percebemos a obsessão que Mel Gibson tem pela religião e por seu país. Tudo junto e misturado. Tanto que, segundo um artigo da Variety, da ideia inicial à produção, levou-se mais de quatorze anos. O filme recebeu uma ovação de pé de nove minutos e 48 segundos no Festival de Cinema de Veneza, realizado em setembro de 2016. Vince Vaughn faz uma referência ao filme “O Mágico de Oz” quando diz “Bem, Dorothy, nós não estamos mais em Kansas”.

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