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O Acerto de Contas Com o Passado de Um Caubói Moderno

Por Fabricio Duque

Antes de traçar linhas analíticas sobre “Manchester à Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan (de “Conte Comigo” e “Margaret”), precisamos falar sobre Caleb Casey McGuire Affleck-Boldt, ou Casey Affleck. Tudo porque o longa-metragem em questão aqui é definitivamente um gênero filme de ator, em que toda responsabilidade de conduzir o público advém de sua interpretação em encarnar da forma mais naturalista-espontânea o protagonista. E conseguiu, provando que é um ator que interpreta por menos e assim transpassa toda a maestria da encenação. Tanto que venceu na categoria de Melhor Ator no Critics’ Choice Awards e no Globo de Ouro 2017. Foi um filme presente. O filme seria o primeiro trabalho na direção do premiado ator e roteirista Matt Damon. Ele hesitou, porém, e deixou a função nas mãos de Lonergan. O astro seguiu no projeto como produtor.

Ele nasceu Falmouth, 12 de agosto de 1975. É o irmão mais novo do ator e diretor Ben Affleck, com quem tem colaborado profissionalmente em filmes como “Gênio Indomável” e “Medo da Verdade”. Em 2007, Casey ganhou reconhecimento e elogios da crítica por seu trabalho em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, pelo qual recebeu indicações para o Oscar de melhor ator coadjuvante, Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante, Screen Actors Guild para melhor ator coadjuvante e venceu o Satellite Award de melhor ator coadjuvante. Ele também foi a voz de Mitch na animação “ParaNorman” e fez “Interestelar”.

“Manchester à Beira-Mar” busca fazer com o que o espectador “nade” na história, optando por planos melancólicos, silenciosos, introspectivos e de pontuação narrativa, e unindo peças do quebra-cabeças aos poucos. Pelo menos, é o que se espera. Há um ditado que diz que nem tudo que se objetiva, se realiza com a plenitude do sucesso. Aqui, o equilíbrio da primeira parte do filme é violentamente modificado quando o conflito explícito é inevitável. A tragédia e sofrimento são excessivamente potencializados, mas sim, Casey Affleck segura com precisão cirúrgica seu papel, imprimindo camadas psicológicas-interpretativas que fornecem toda a complexidade traumática-defensiva de seu protagonista.

A sinopse nos conta que Lee Chandler (Casey Affleck), um “faz tudo” rude, hostil, agressivo, preconceituoso, machista e “esquentadinho” (um completo “caubói” moderno “pitboy” no limite da raiva – uma mistura de Clint Eastwood com Marlon Brando), é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes. Lee mantém-se controlado, “na linha”, sem conseguir demonstrar o choro e a percepção do sofrimento. Sua sensibilidade é técnica, distante, lógica e silenciosa, enaltecendo a máxima de “Os Brutos amam, mas não choram”.

“Manchester à Beira-Mar” tem fotografia saturada a uma névoa nostálgica (que fornece a magia concretista) de um cotidiano presente, mas que parece viver inalcançado nas angústias e fugas de um passado (que teima em voltar em detalhes de um acaso manipulado, ora por digressões flashes (que se intercalam em períodos mais longos), ora por uma “pia pingando”) de naturalidade editada. A narrativa seca, direta, clássica, de câmera estática contemplativa-bucólica (pela neve que estimula a metáfora da apatia e desinteresse adormecido) e sem trilha sonora incidental, como uma obra sueca de Ingmar Bergman, é contada por micro-ações continuadas com suaves em um curto espaço de elipses temporais, principalmente quando a aproximação (zoom) da câmera tenta “abusadamente” intervir, adentrar e despertar o lado humanista de Lee. Porém, não há sustentabilidade e a câmera retorna ao longínquo, nos transformando em “bisbilhoteiros”.
É realista e pode ser definido, livremente subjetivo, como um Richard Linkater. É praticamente um “Boyhood” dramatizado, também perceptível pela quantidade de referências pop (“Jornada nas Estrelas”, “Matrix”, “Mad Max 2”) contrastando com a ópera de uma fábula-epifania.

Tudo volta. A vida que foi deixada para trás o obriga a ficar e a resolver as pendências fugitivas (e a possibilidade de um acerto de contas). O sobrinho, um típico “desorientado” incompatível de timidez social, encontra no tio o sarcasmo característico da idade. O novo é por natureza. O mais velho, por covardia. Aos poucos, quando mais se aprofunda, o drama intensifica, pela presença marcante da música clássica, a neve aumenta, o frio aumenta. Tudo é potencializado no desespero retro-alimentado co-dependente do “difícil superar” (como um livro trágico). Talvez a pressa seja por causa necessidade urgente de ligar os pontos, encerrar o ciclo e concluir o final (assim o ritmo construído é perdido, ficando acelerado demais). Muitos detalhes e reviravoltas “consertadas” em minutos. E quando a calma é restabelecida, o jazz mostra seu valor equilibrado, a fantasia da vida perfeita recuperada. E a vida segue como ela é.

“Manchester à Beira-Mar” é um filme, como já foi dito, de ator. E só por causa de Casey Affleck, já é válida a ida ao cinema. Ele está ótimo. Irretocável. Quanto à cadência narrativa, é um mero detalhe e pode ser relevada pela experiência visual que o espectador é submetido e mergulhado. A cidade foi chamada Manchester até 1989, quando o residente Edward Corley conduziu uma campanha altamente controversa para mudar formalmente seu nome para Manchester by the Sea. A ação foi aprovada pela legislatura estadual naquele ano.

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