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Um Platonismo Antropológico Típico Português

Por Fabricio Duque

Uma das características marcantes do cinema de Portugal é o dom natural em mesclar o moderno com o barroco. O novo com o nostálgico. Ao equilibrar esta travessia tênue, um novo gênero é criado: próprio, particular e majestosamente criativo. “John From” não poderia ser diferente. Seu realizador João Nicolau (de “A Espada e a Rosa”, exibido no Festival de Veneza de 2010) estudou Antropologia (detalhe este que explica a ambiência concretista visual deste seu segundo longa-metragem) e colaborou com João César Monteiro, Margarida Gil e Miguel Gomes, trabalhos estes influenciadores e “escolares”.

“John From” é uma viagem-epifania de ficção científica aprisionada no tempo presente por personificar quereres, projeções, amor platônico, a “pasmaceira” do tédio rotineiro vivida na “prisão” de apartamentos de um condomínio fechado. A espontaneidade inicial busca transmutação fugaz na imaginação fértil (que se baseia na exposição “Melanésia – Ilhas do Pacífico” de Vlad Soklin sobre povos “espíritos” ancestrais; em poema de Mario-Henrique Leiria; e em cenas adaptadas livremente do livro “Noa Noa”, de Paul Gauguim) de uma menina comum de quinze anos, envolta nas questões de crescimento, da liberdade sem limites fornecida por pais que preferem suas individualidades ao confronto da ordem (simbolismo ao filme “Sombras no Paraíso”, de Aki Kaurismaki), nos amores, nas amizades, nas festas e na experimentação da própria vida e suas referências.

O filme constrói uma atmosfera naturalista da cultura de uma família classe alta (que não se importa com as compras de supermercado e que passa os finais de semana na praia), que não se impõe, mas sim complementa com o espontaneidade a história, principalmente pela fotografia-névoa de tempo pausado, e pela trilha sonora, “sons mágicos”, avionetas e ambiente sonoro de João Lobo, que conduz a trama ao elemento cósmico da vida, intercalando fábula realista e comportamento coloquial de um conto específico sobre uma vida privada ao som de “Lambada”, do grupo Kaoma e da cantora Lily Allen.

“John From” é sobre a adolescente Rita (a atriz Júlia Palha): tem tudo, 15 anos, um ex-namorado e o verão a seu redor. Para passar o tempo, e dar mais diversão a seus dias, inunda com água o assoalho da sacada do apartamento, toma sol e deixa bilhetes para sua amiga Sara (Clara Riedenstein) no elevador. Sua vida sai da mesmice quando visita a exposição de um novo vizinho Filipe “John From” (Filipe Vargas) no centro comunitário local, por quem se interessa e faz de tudo para conquistá-lo.

Alguns dirão que é um filme sobre o nada. Mas não. Pelo contrário. “John From” perpassa e aprofunda camadas existencialistas sobre a força atual dos imigrantes, sobre a influência do amor que atinge novos conhecimentos, sobre a solidão que afeta dez entre dez pré-jovens urgentes e imediatistas em suas ações, sobre a individualidade-geração dos pais moderninhos, que mitiga a presença na vida dos filhos perdidos e vulneráveis.

“John From” é um filme por micro-ações continuadas, ora de espera que quase transforma suas personagens em estátuas vivas, ora de sinestesia musical, ora da projeção vivenciada do querer consciente. É permitido ao espectador mergulhar na mente de uma adolescente sonhadora, adjetivo este que também faz parte destes novos seres humanos que descobrem suas existências ainda obscuras, vazias e brancas de conhecimentos de mundo. Concluindo, um longa-metragem que representa mais uma aposta da produtora O Som e a Fúria, e que busca o conteúdo livre, pleno e absoluto da mensagem metafísica a fim de descolonizar nossas percepções já padronizadas.

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