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Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Berlim 2016

“Muito Romântico”, do diretores estreantes em um longa-metragem, Gustavo Jahn e Melissa Dullius representa uma pessoal experiência artística do casal. Neste relato ficção com atmosfera documental, os dois são personagens de uma jornada que atravessou o oceano Atlântico em busca de uma vida nova em Berlim, mesmo lugar que foi exibido pela primeira vez na mostra Fórum do Festival de Berlim 2016. A existência deles é interceptada pela metáfora concretista do estrangeirismo. De navio desde o Brasil, embarcam literalmente em uma digressão, narrada por verborrágicos adjetivos existencialistas (com a batida-ruído musical de tambores de um ritual indígena – que os transformam em inocentes desconhecidos de um novo iminente), que tenta traduzir os anseios, medos, ansiedades e projeções de uma vida zerada e a se iniciar. A narrativa estendida, de fotografia saturada à nostalgia de um filme antigo e caseiro, experimenta ângulos de câmera (como pela escotilha) e tons mutáveis pela música (que suaviza a melodia). É estético, e pautado por instantes (o por do sol, a espera personificada, o tempo pausado da viagem, as fotografias intercaladas). É um álbum. Uma carta videoarte. Um diário pessoal que se inicia sem diálogos, com “idealismo criativo” analógico-antiquado-efêmero-orgânico, sem intervenções e com imagens de sonhos – potencializando o estágio racional pelo uso de drogas psicotrópicas, como o LSD, que também podem ser analisados como o querer-decisão mais íntimo-verdadeiro que se expande e obriga a aceitação. É conceitual quando se diz “Terra à vista”. Chegaram enfim à terra firme, à civilização, a Meca salvadora e próspera do Primeiro Mundo. Eles seguem seu caminho fazendo filmes, amizades (destaque a Gustavo Beck) e música, mas um segredo revelado faz o medo vir à tona. Os dois perdem o rumo, até o dia em que encontram um portal para o cosmos, expandindo a travessia para além do tempo e do espaço. Neste processo pessoal-solitário-individual-matrimonial de crescimento e adaptação, respeita-se a intimidade, e preços de aluguéis de prováveis escolhas de casas procuradas. É a aventura da ida. Do se adaptar. De escolher. Do trocar. De lar (“A gente só tem espelho e cadeira”). E talvez da própria vida (“Vai dar, mas vai dar trabalho”, diz-se aceitando a individualidade). Da câmera que fica e reverbera a fotografia contemporânea e força, propositalmente, a interpretação que procura a espontaneidade (como um teatro encenado de confronto – “diz tudo que precisa dizer, mas não traz nada para casa depois”) para envolver com perspicácia, sarcasmo, realismo e vanguarda de toda produção artística. “Produzir, não procrastinar”, diz-se entre a ociosidade temporal e a epifania ectoplasma etérea (de não sentir o corpo). Assim, ingenuidades, “universo egocêntrico”, estilismo, pretensões, androgenia, alegoria, elitismo, defesas, sensibilidades, dramas, tudo vibra, e fica nauseado, de crença cúmplice, auto-reflexões de efeito, como “uma onda que vai e vem” e que “tem que aguentar”. É hiper-real. “Uma cidade em constante transformação. Tem que conquistar esses espaços”, discursa entre outras histórias-vidas paralelas. É verbal. “Toda ideia inicial é subjetiva. Passar à tela é o que faz maestria”.

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