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Por Fabricio Duque

A verdadeira essência da arte cinematográfica, em seu estágio mais puro, é a mitigação de gatilhos comuns, assim, nós, o público, podemos sentir o que assistimos. Esta representa a característica intrínseca: potencializar a sinestesia quando elementos-detalhes são personificados. O barulho do vento, ruídos sobrecarregados, o coração batendo forte de uma personagem, o silêncio de constrangimento e ou de proteção, tudo constrói a dialética do olhar, principalmente pela narrativa que pausa o tempo presente e aprisiona instantes. “Guerra do Paraguay” é um destes exemplos de conjugar o conceito da autoralidade com técnica propositalmente livre. Seu diretor, Luiz Rosemberg Filho, atesta sua maestria de criar imersões adjetivadas (antes por colagens-sacadas metafóricas e desde “Dois Casamentos” segue por reverberar a quase trilogia da perfeição – alguém duvida que seu próximo longa-metragem deixará a desejar?). Aqui, sua experiência-ensaio-teatral estética, filosófica, utópica, realista, de revisitação atemporal-sugestiva (pela escolha do preto-e-branco) e anti-geográfica, busca o desenvolvimento do tema, do texto, do discurso e mais uma vez de conservar o cinema como necessidade máxima. Rosemberg precisa de tempo para desferir suas frases de refinada perspicácia coloquial, elemento este, hoje em dia, mais escasso, e abraça referências de outros cineastas como uma forma-homenagem de enaltecer o respeito da cinefilia e a inteligência dos espectadores-cinéfilos. É inevitável não inferirmos à estrutura do filipino Lav Diaz e quase explicitamente a Bela Tarr e seu “Cavalo de Turim” (pela sequência única sem cortes – de câmera participativa – poética-concretista-visceral de duas mulheres puxando uma carroça, com uma terceira doente, indo de lugar nenhum a outro desconhecido). Sim, é neste exato momento que suas representações político-figurativas são espontaneamente humanizadas e observadas de perto. É o eterno embate da sobrevivência das classes sociais menos favorecidas, que obrigadas a retardar a vida, alimentar monólogos enérgicos-catárticos-linguísticos, e se resignar nas pequenas mortes diárias, errantes, retirantes e mambembes, aceitando a difícil condição de “burros de carga” de uma sociedade hostil, egoísta, individualista, que cada vez encontra na guerra a possibilidade oportunista da supremacia existencial-idiossincrática de futilidade-alienante. A narrativa é excessivamente literária e dramaturga, evolve Bertolt Brecht e sua “Mãe Coragem” e Samuel Beckett e “Fim de Partida” e cria a percepção de uma ficção científica pós-apocalíptica de psicodelia substancial psicotrópica. Um comemora sozinho o fim da guerra. E elas acreditam que nada mudará. Como já foi dito, são ferrenhas realistas quase impossibilitadas de esperança no futuro. “Viva o povo brasileiro!”, discursa com alteração populista passional argumentativa, dissecando assim a luta pela verborragia. Dois lados. Dois loucos. Cada um a sua maneira e crença enraizada. Por exemplo temos o soldado que usa a farda como fantasia burocrática – e que ganha “medalhas para matar” – à moda de “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu contra “atrizes desmilitarizadas”. Sonhar é difícil. Quase impossível. “Guerra do Paraguay” não só altiva seu conceito, mas também complementa a competência com seus atores, principalmente suas atrizes, Patricia Niedermeier e Ana Abbott (de “Dois Casamentos”), Chico Diaz e Alexandre Dacosta, que se entregam tão plenamente, sem vaidades e limites, a seus papéis, que nós somos abduzidos a experiência teatral. É o embate da esquerda contra a direita. Da importância da guerra (um “passatempo”. Se na cinematografia de Glauber Rocha, as ideias eram inflamadas, aqui vislumbramos uma parábola política mais suavizada e ingênua, entre uma “botina no fogo” contra a fome (na melhor referência Charles Chaplin). “O pior analfabeto é o analfabeto político”, já dizia o poeta alemão Brecht, e Luiz Rosemberg Filho critica com embasamento ao incluir uma valsa a la Disney de ser na melhor desconstrução a la Jean-Luc Godard nessa metáfora poética sobre a guerra sangrenta. “Guerra do Paraguay” cria a quebra do espaço-temporal quando une o inesperado que se torna real: um encontro do passado com o presente, da barbárie com a arte. Um soldado vindo da Guerra do Paraguay se encontra uma trupe de teatro dos dias de hoje. Concluindo, altamente recomendado. Integra a Mostra Olhos Livres da vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017.

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