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A Culpa é das Estrelas

Por Fabricio Duque

(A Escolha do Brasil à Corrida do Oscar)

Quando a escolha do Brasil para representar nosso país ao Oscar foi anunciado, a arte cinematográfica literalmente tornou-se explicitamente de víes político, como uma partida de final de campeonato nos moldes culturais de um “Fla x Flu”. De um lado, o favorito “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que concorreu a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016. Do outro, “O Pequeno Segredo”, filme, desconhecido e que ainda não estreou (terá sessão de lançamento no Festival do Rio 2016). O segundo ganhou a vaga, reverberou elucubrações passionais-utópicos, inclusive do diretor do primeiro, que se sentiu injustiçado. “O Pequeno Segredo” tocou até mesmo no ponto de que o maior prêmio mundial é nada mais que a exacerbação potencializada do capitalismo hegemônico americano, discurso este contraditório e repetido por seguidores de “Aquarius”. Aqui, nosso site, apolítico, não acredita que estas suposições merecem ser levadas em quesitos definidores, e sim, unicamente, o mérito e o trabalho que cada filme apresenta. Portanto, se o primeiro longa-metragem desconstrói a lógica do cinema com uma inventiva estética, já “O Pequeno Segredo” escolhe repetir os gatilhos comuns palatáveis de uma estrutura novela. Não sei se proposital, mas este foi sim criado e “lapidado” aos votantes do Oscar. Vamos por partes. Sua narrativa opta pelo característica sentimental, de inserir músicas emocionais que “rasgam” a cena, de imprimir uma história (mesmo baseada na realidade acontecida e vivenciada de seu diretor David Schürmann no livro homônimo de Heloísa Schurmann) dramática com manipulações melodramáticas com o querer de levar às lágrimas até mesmo o mais bruto dos seres humanos. São três histórias conectadas por um único segredo, abrangendo a primeira família brasileira a dar a volta ao mundo a bordo de um veleiro, quase um universo que Amyr Klink de ser. Conhecidos por seus cruzamentos marítimos, os Schurmann (incluindo um documentário “O Mundo em duas voltas”, de 2007, guardaram por um longo tempo, a comovente história da adoção de Kat, filha adotiva, falecida em 2006, aos quatorze anos, por complicações da Aids. Mas se tem alguma coisa que precisamos concordar é que a condução do filme (do início ao fim) defini-se, assumidamente, como um gênero emocional-sentimental de um drama real familiar. Como foi dito, “O Pequeno Segredo” objetivou não esquecer nenhum gatilho “cliché” comum: a câmera que ora “voa” no mar, ora lenta; a música excessivamente sentimental (que aumenta o tom); a borboleta que alcança e sai da tela; um ritual indígena (que se explica na última cena); a narração também de efeito, existencialista (“Muita gente tem medo do mar. Eu resolvi viver nele”); a fuga como proteção; digressão intercalada que explica o porquê do passado. Uma vida comum, com “lista de planos” e a preocupação-preconceito da mãe à opinião dos outros se descobrirem sobre o “segredo” da filha. O roteiro, não linear, de elipses que vão e voltam, aos poucos fornecem dicas e detalhes, poetizando visualmente a Amazônia. De novo, nova sequência de clichês e caricaturas comportamentais: a carta rasgada, jogada no rio, um gringo (“boto rosa”) da Nova Zelândia (e a frase “O barco indo para o lugar errado. Parar de sonhar”), a bebida alcoólica no café da manhã e ou “afogando as mágoas na cachaça”. Tudo é explicado demais, soando anti-naturalista e óbvio, como uma novela didática. Mas há exceções: a atriz Maria Flor está sexy, solta e espontânea (“Pra desistir são quatro dias com vento contra” e “Para sossegar um gringo? Mágica brasileira”). Já a Lilian Lemmertz corrobora a maestria de sua natural interpretação (que na maioria das vezes diz tudo apenas com o olhar e com a expressão de por exemplo sua proteção radical em retirar o rótulo do remédio para que a criança não saiba a verdade). Nova sequência clichê: ele corre, a chuva cai, e uma trágica reviravolta. Novas exceções: a música clássica a la realeza aristocrática de época à bailarina mirim, que “flutua a coreografia”, que vivencia a fantasia de Peter Pan (e a Sininho) e que “dança não só com técnica” (a leveza versus a quadradice). Kat descobre a vida. Possibilidades, opções, oportunidades, afinidades, diferenças, bullying, e aprende a ser leve “pelo sol que traz vida e merece um agradecimento especial” (“Medida por vários pôr-do-sol”). “O Pequeno Segredo” é fofo, simétrico e quadrado demais, como o nome do barco que “diz muito sobre o dono”. Mas funciona quando aprofunda o papo, mesmo alinhado demais. Aí descamba: a intolerância aos remédios, o HIV é cuidado com mais preconceito; a baleia faz ligação amadora. Enfim, faltou focar em um único caminho, talvez pela passionalidade de seu diretor que não conseguia enxergar de forma distante a temática que estava dirigindo, acabou por fazer um exemplar homenagem à filha (de expurgar os demônios da saudade), mais como uma “Culpa é das estrelas” e menos como um “Cisne Negro” que inova na estética. O final “abraça” Terrence Malick (e “A Árvore da Vida”) com o “Se concentra nos movimentos. Brilha. Esquece de tudo. Lembra de respirar”.

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