olympia-2016 O Simplismo Arquétipo de Uma Política Olímpica

Por Fabricio Duque

“Olympia 2016” reverbera uma crítica político-social ao cenário brasileiro atual, focando especificamente na cidade do Rio d Janeiro, por causa de sediar os Jogos Olímpicos. A narrativa híbrida, entre documentário e ficção, mescla a visão passional-utópica de seu diretor Rodrigo Mac Niven (de “Cortina de Fumaça”, “O Estopim”, “Armados”), que foi influenciada a acontecer pelas história de Lúcio Vaz, jornalista investigativo e autor de livros como “Ética da malandragem” e “Sanguessugas do Brasil”. A temática abordada é recorrente em seus trabalhos, e busca fazer com que o espectador questione sua passividade resignada e a transforme em uma revolucionária luta pessoal política em prol dos próximos indivíduos que compõem nossa sociedade tupiniquim.

O longa-metragem é essencialmente independente e só foi possível por causa de seu financiamento coletivo (“que ainda está sendo feito e que contabilizou quinhentos e trinta e quatro colaboradores”, apresentou o cineasta). Aqui, “Olympia 2016”, nome fantasia-exemplificativo-fábula que metaforiza em uma ficção científica pós apocalíptica pronta a entrar em colapso terminal, é um retrato temporal (do pretérito “sertão Barra do Bananal” de 1931 ao futuro surreal ininteligível) “assombrado” por um verdadeiro fenômeno de corrupção tão enraizado que abate diversos níveis institucionais da sociedade e também todos os habitantes do local.

A importância do filme está no foco do próprio contexto conceitual, e muito menos na forma como se apresenta suas ideias. Por isso, é irregular na narrativa, que lembra reconstituições de uma novela da Rede Record, câmera lenta nos momentos de perigo-suspense iminente do dia de hoje, fotografia que intercala a cor e o monocromático, a trilha-sonora dramatizada (que ganha contornos e adjetivação de uma personagem personificada – suprindo o silêncio e embalando o pensar do público), a narração do rádio que explica e resume os acontecimentos do “legado de Olympia” (“a cidade já quebrou, mas ninguém pode saber às vésperas do grande evento”), e a epifania sensorial-existencialista, como a cena do olhar do cavalo e as penas que pululam na cidade de realidade ficcional (detalhe ao Cristo Redentor com asas). É essencialmente anti-naturalista em sua edição e nas interpretações (forçadas, o termo correto).

É revolucionário. De continuar a lutar. De não permitir a conformidade, tampouco o estoicismo. A liberdade está exatamente em sua utopia, de embasar na própria História e na Constituição Federal do Brasil. Impossível não inferir as vertentes-camadas de “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós. Esse hibridismo de um documentário dentro da ficção construída, que “vê a corrupção como um sintoma e não uma doença”, elevando a máxima esperançosa de que nosso país tem sim salvação e “cura”, alimenta a maestria resultante e diligente pelo classicismo dos depoimentos didáticos, enquadrados e simétricos, que se desenvolvem por teorias e estatísticas factuais deste corrompimento financeiro-comportamental (de que “não houve ruptura” do passado ao hoje presente). “O simplismo na análise leva o simplismo da ação. É complexo, sim”, diz-se tudo para dizer que, trocando em miúdos, “os fins justificam os meios” – nosso tão conhecido e acatado “jeitinho brasileiro” de abaixar a cabeça e aceitar o “meteorito” das desvirtuadas reformas.

“O Judiciário é criminoso. Mas não pode se politizar. E o povo conivente, também pratica (a corrupção)”, a polêmica conduz seu ritmo “mais ousado” e caminho protesto pelas palavras desferidas, entre resgate a Comissão da Verdade. “O Brasil adora as figuras messiânicas em época de crise”, complementa mais análises de transações político-financeiras e de bastidores. Busca-se a atmosfera enérgica de revolução inflamada “sendo acordada”, que faz lembrar do povo “gigante que acordou”, que se explicita aqui por elipses, por sonhos e por metalinguagem (que lança um olhar aprofundado sobre o próprio filme que nós espectadores estamos assistindo).

“Olympia 2016” é um documento de variadas crenças políticas, como a liberação das drogas, como por exemplo, a maconha, que vem corroborada por uma música de gênero reggae, e que se auto-critica pela “vista perfeita” de um luxuoso apartamento de seu diretor. “Às vezes, a história escolhe a gente”, diz-se e filosofa que “asas são podadas” por uma sociedade atual que deseja a padronização e a alienação do pensamento. Assim, a política é romanceada com ambiência de uma novela com seus respectivos núcleos, conflitos e reviravoltas. Logicamente, certos elementos repercutem utopias já tidas como “clichês” como patrimonialismo, redemocratização, cultura fisiológica, aversão mais agressiva contra políticos, como Bolsonaro que “apoiou um torturador”.

É inevitável não se tomar “partido”. Sim, totalmente aceitável e esperado a politização de luta de “superar a polarização” e de que “governar não é dirigir, é ajudar a dirigir”. Sim, é maniqueísta. Há os bons e os maus. De um lado, há os burgueses, os “posseiros” e a “rainha da banana”. Do outro, os necessitados sociais. É um filme social, que abraça a desigualdade e tenciona o discurso a favor do povo, de indagar e investigar os “podres” e a “ilegalidade de todos os gostos e todos os tipos”, sem deixar a Vila Autódromo e seus moradores (cuja “comunidade não é estacionamento”). “O que botar na mídia, o povo acredita”, diz-se, com mais uma crítica aos meios “hegemônicos” de comunicação social. “É uma cidade que nega o próprio conceito de cidade”, eufemismo de modificar nomes e manter a referência protetora pelo sarcasmo. “Batom na cueca da improbidade. Impeachment do prefeito. Ética é a vida digna”, finaliza com música de Legião Urbana para reiterar a “especulação e os grupos paralelos”, entre tantos depoimentos, como os de Bernardo Toro, Raquel Rolnik, Andrew Zimbalist, Juca Kfouri. A produção e o lançamento do filme também a inspiraram a produção de uma graphic novel que prolonga e complementa a trama do longa-metragem ao narrar uma história mitológica e fantástica.

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