Por Fabricio Duque

 

“Nahid”, da diretora iraniana Ida Panahandeh, estreante na direção de um longa-metragem, é um filme que busca o cotidiano naturalista-espontâneo da própria vida para construir sua narrativa, que mesmo explicitamente conversando com o cinema dos cineastas Abbas Kiarostami (de “O Vento Nos Levará” – este por apresentar uma característica quase apolítica e se interessar pelas miudezas dos dramas cotidianos) e Ashgar Farhadi (“A Separação” – já este por representar a realidade sem a suavização do tema, explodindo um confronto catártico), consegue uma unicidade de sinestesia particular por fazer com o espectador sinta as angústias, limites, submissões, preconceitos, sonhos, desejos, quereres, decisões e argumentos da “prisioneira” protagonista, o nome do título, que “aceita” entre a resignação e a resiliência sua condição de mulher de uma “sociedade iraniana tradicional”. Nahid (a atriz Sareh Bayat – que também protagonizou “A Separação”) precisa lutar a fim de “marcar seu território” neste mundo dominado e “mandado” por homem, e que reverbera no próprio núcleo feminino familiar e ou próximo dos vizinhos a opinião incondicional e radical do “lugar menor”, delegando autoridade aos “canalhas” machistas, como o ex-marido bêbado e viciado em jogo, que mesmo inconscientemente influencia seu próprio filho às más condutas). Aqui, é abordado muito mais o comportamento social massificado por ideias e ideais “conservadores” de seus indivíduos “seres humanos” que o elemento crítico político propriamente dito. É uma história realista que retrata um olhar específico e respeitoso (visto que o roteiro não julga pelo subjetivo, pelo contrário, apenas documenta estas reações limítrofes pela vivência individualista-idiossincrática-antropológica de seus personagens). “Nahid” conserva uma das características principais do cinema iraniano, que é traduzir pela simplicidade e sem gatilhos comuns ilusórios o que se deseja contar. A narrativa foca completamente na ambiência social, assim captura e imerge com a própria força dos acontecimentos de confronto moral-ético. É sobre uma mãe solteira que necessita quebrar a “normalidade” com o divórcio e uma nova paixão; aprender a conviver abertamente com os “olhares atravessados” e a defesa egoísta-intransigente rebatida pela agressividade verbal que transcende ao físico. “Nahid”, que foi exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2015 e no Festival do Rio do mesmo ano, é um filme moderno, observado nos detalhes, como por exemplo, o novo modelo do Iphone, porém perpetua sua natureza de atraso de um tempo que parou a essas mulheres. O cineasta disse certa vez que Abbas Kiarostami “tem carinho por seu país, e que vê algo visual além da selvageria e destruição, sem mitigar a ousadia de dizer o que pensa”. É exatamente assim que também podemos traduzir a linha cinematográfica de Ida Panahandeh (que soube escolher primorosamente a estação do outono porque “As nuvens e o cinzento da cidade iriam reflectir a natureza profunda da minha heroína e dos outros personagens e enriqueceriam a atmosfera do filme”), cuja maestria do resultado está na fusão de referências, “inventando o real” (já disse a Doutora em Cinema Ivonete Pinto da USP). “Nahid” é generoso com seus personagens, em um minimalismo que extenua uma complexidade visceral, juntando olhares-percepções e simplesmente os registrando. E mais vez, citando Kiarostami: “O diretor precisa ser também o espectador do seu próprio filme”. Sim, a diretora em questão aqui faz bem o que deseja assistir. Quanto às interpretações, o longa-metragem “suga” de seus atores todas as nuances e sutilezas. Estão irretocáveis. Cada um deles, por conseguirem a química encaixada da sinergia em lidar com a “eugenia” típica e “protegida”, cujo preconceito reflete no menino-filho Amir Reza (o ator Milad HasanPour. A sinopse nos conta que em Teerã dos dias atuais, Nahid consegue obter o divórcio do marido. De acordo com as leis religiosas iranianas, o pai obtém automaticamente a guarda do filho, mas Nahid consegue ficar com o filho de 10 anos de idade, em troca de dinheiro e contanto que nunca mais se case. Um dia, porém, Nahid se apaixona, e teme quebrar as regras do acordo. Entre casamento permanente e provisório, sua jornada-existencialista desenha um retrato verídico de um Irã que mesmo em 2015 não expande a consciência da aceitação. “Em cada um dos meus filmes, a maior inspiração é a própria vida. Também há algo sem o qual a minha vida não teria sentido: a literatura. Vi os filmes de Tarkovsky, Bergman, Kiarostami, Ayyari, Ozu, Mizoguchi, Kurosawa, Billy Wilder, Jane Campion, Kubrick e de Coppola várias vezes”, finaliza a diretora Ida Panahandeh. Concluindo, um filme obrigatório e imperdível, que ainda levanta a questão de que uma estreante na direção não necessariamente precisa apresentar uma obra mais ou menos. Os adjetivos de qualidade, criatividade e excelência já nasceram com o filme e com sua cineasta. Recomendado.

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