Por Fabricio Duque
Talvez o segredo da maestria-equidade do filme “Big Jato” seja porque seu polêmico-oportunista e pseudo-utópico diretor pernambucano Cláudio Assis se comporta menos como um Cláudio Assis e muito mais como um Hilton Lacerda (seu roteirista, de “Tatuagem”). Ao “dar um tempo” no discurso inflamado, enérgico, catártico, dramático e quase infantil-mimado (de seu longa-metragem anterior, “A Febre do Rato”, por exemplo), e ao “abraçar” o humor sarcástico, ácido, crítico, machista, de cotidiano livre e politicamente incorreto à homofobia (servindo quase como um porta-voz confessor das idéias ogras enraizadas e pululadas sobre diferenças sexuais), a mensagem consegue a fluidez necessária para se conduzir com qualidade pelo caminho objetivado do conceito autoral. Em uma de suas entrevistas, Assis diz ter buscado inspiração no desenvolvimento de sua narrativa em “Esse Obscuro Objeto do Desejo”, de Luis Buñuel. Menos, Cláudio. Bem menos. O filme venceu o Festival de Brasília 2015, entre vaias (em sua apresentação), aplausos de pé (após a exibição) e de novo mais vaias (em sua premiação), tudo por causa de seus comentários preconceituosos de teor altamente mercadológico e marqueteiro. “Big Jato” é uma adaptação do livro homônimo do jornalista Xico Sá (que apresenta o programa “macho” “Papo de Segunda” no canal pago GNT), que teve como preparadora de elenco a atriz Maeve Jinkings (de “Boi Neon”, “Aquarius”), e que não é tem a assinatura de Walter Carvalho na direção de fotografia, desta vez assumida por Marcelo Durst. Aqui, é uma crônica sobre a construção de um jovem poeta no meio do sertão nordestino e uma metáfora poética, filosófica e coloquial do “peixe de pedra” (que mesmo sem mar, a “prisão” de ser obrigado a ser outro, “sufoca” e “afoga” aos poucos os sonhos). “O peixe nunca saiu de dentro de mim”, diz-se, entre imagens epifania (sensoriais e etéreas) e ângulos de câmeras subjetivos, ao se “apegar” nas fugas “mais próximas que conheceu da felicidade” e na “curiosidade que mata mais que a coragem”. “Big Jato” é um “Road Movie” que cria o paralelo da liberdade (de um personagem que “vive”) e da resignação agressiva (de outro que por falta de “coragem”, entrega-se a “morte diária”). De um lado, a vida quase hippie “easygoing Lerilay”, no extremo oposto, a vida “merdinha” (“filho de merda, é merdinha”) de um autoritário patriarca com “filho androgenado”, que só vê o “trabalho” se for “suar a camisa”. São dois personagens, que por mais diferentes, estão no mesmo barco. E no meio do crescimento de indivíduo social (e acima de tudo ser humano), está o menino Francisco (o ator também irretocável Rafael Nicácio), que passa os dias a acompanhar o pai (Matheus Nachtergaele – que como sempre, de forma irretocável, se entrega sem ressalvas, tabus e medo do retorno do papel) no trabalho, ou melhor, nas estradas, motorista do imponente Big Jato, um caminhão-pipa utilizado para limpar as fossas da cidade sem saneamento básico. Sua mãe (a atriz Marcelia Cartaxo) e seus irmãos ajudam a família vendendo produtos de limpeza (fonte de renda mais segura financeiramente – é a descaracterização alterada do cheiro essência pela química). Mas o garoto está mais interessado nas ideias do tio, um artista libertário e anarquista (ultra-nacionalista que cultua “Os Betos” – que por ele, “foram a real influência por trás da banda de Liverpoool”). E assim que descobre o primeiro amor, Chico percebe a vocação para se tornar poeta (“cabeça oca”). “A curva é que dá sentido à vida”, diz-se, intercalando conversas (filosofia popular vivida) sobre religião, Beatles, referência explícita a “febre do rato”, e a “loucura” do personagem “O Príncipe” (o ator músico Jards Macalé – que fornece a incondicional sobriedade e sanidade da tempestade mental. O filme é uma “arrenga” (uma rejeição com desprezo, talvez por orgulho de tentar conservar o único resquício de honra existente no turbilhão vivido da humilhação alheia), uma picardia, uma forma de proteção tendo a zombaria como antídoto, testada e cúmplice pela própria família. O discurso hiperbólico não é esquecido. Pelo contrário, potencializado com instintiva “escatologia” sobre a “maldição dos sonhos”, linguagem chula naturalista, “cinema ser uma mentira”, “Poesia, calo na imaginação”, “Livro só presta para inventar a vida que não teve. Só a matemática ajuda”, “Deus ter criado o cu do homem e o cu da mulher. Amém!” (impossível nós não lembrarmos “Tatuagem”: “Tem cu, tem cu, tem cu” – é tudo sobre o “cu e a própria merda”). Porém, tudo com ritmo suficiente para harmonizar a trama (“É difícil saber o segredo das pequenas verdades. Só a vida que explica”). “Big Jato” é espirituoso, interativo à moda Godard (de olhar à tela e encontrar o espectador) visceral, poesia orgânica (surtada, catártica e de “excremento lamuriante”) e mais um debate questionador que pela primeira vez ouve o outro lado ao se “perdoar” na frase “Controvérsia é bate-boca” e a “prosa” da máquina de escrever de um “voyeur do suor alheio”. “Amor é a delegacia da alma”, diz-se. E assim, “Big Jato” conquista seu público, ainda que com a encenação interpretativa necessária de seu final à La Federico Fellini sertanejo, e com os sintomas da “febre do rato”. “Onde tem cheiro, tem vida”. É apaixonado (“amar é particularidade”), intenso (quase uma “macumba para cagar”), passional e que não deixa seu protagonista mirim “parar para não se fossilizar em lugar nenhum” ou por “não pertencer à arqueologia. Antes, ele estava preso dentro de si mesmo, agora, acordou. “Se a montanha-mar não foi a Francisco, então Francisco aventura-se à terra prometida”. Concluindo, como foi dito, um filme altamente recomendado.

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