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O Flerte Futurista Sexual que Confronta Nossas Limitadas Percepções

Por Fabricio Duque

E deixaram a Palma de Ouro por último. “Elle”, de Paul Verhoeven, foi exibido no dia final do Festival de Cannes 2016. O longa-metragem, que integra a competição oficial, e que injustamente saiu sem nenhum prêmio, tem tudo o que um filme precisa e deve ter: a união irretocável de um domínio impecável do entretenimento com o conteúdo inteligente de seu desenvolvimento, que com agilidade sem pressa, aprisiona o espectador à trama: um universo disfuncional de infinitas camadas psicológicas de possibilidades-fetiches-sexuais-comportamentais. A edição-atmosfera americana explicita nossa referência a “Instinto Selvagem” ( também da filmografia do diretor em questão aqui, pela estupenda trilha-sonora, que inclui “Lust for Love”, de Iggy Pop). E com a ambiência tipicamente francesa da liberdade de ser o que se deseja ser, principalmente pelo sarcasmo cúmplice de seu humor rebatido na mesma moeda; e pela espontaneidade constrangedora e naturalmente de essência-verdade-idiossincrática à moda de Catherine Breillat (e sua “Uma Relação Delicada” – também com a atriz “politicamente incorreta” Isabelle Huppert – que cada vez busca a própria desconstrução da interpretação no melhor estilo “homenagem” a Marlon Brando), “Elle” coloca esta estupenda e excessivamente espontânea atriz, que “veste” qualquer papel cinematográfico, para “prender” complemente o público em uma aura noir, quase de ficção científica de distopia misteriosa das existências entendidas que são obrigadas a se complementar e conviver socialmente. O longa-metragem é baseado no romance “Oh”, de Philippe Djian, uma “bíblia” do erotismo coloquial (que “salva” quadro-a-quadro a experiência frágil de “50 Tons de Cinza”), e construído pela visão singular de seu diretor, perceptível quando os olhos de um gato assistem a uma cena de sexo. Aqui, tabus são humanizados e mitigados de sensibilidades dramáticas, como o estupro de um ladrão “fantasma” que estimula o tensões sexuais e desejos sadomasoquistas. Não é um filme sobre o feminismo, tampouco uma crítica ao machismo enraizado. E sim é sobre a entrega a filias, aos impulsos selvagens (de um banheiro, por exemplo) e instintos impuros perante às aceitações limitadas e hipócritas de um mundo incompreensível sob a luz da razão. “Elle” é um filme de detalhes. De implicantes picardias. De informações demasiadas para confundir e desnortear o próprio espectador, que tenta montar em vão o quebra-cabeças fornecido (o PEP, a menstruação, a quebra de paradigmas, a naturalidade do HIV +). Nós somos manipulados e jogados com perfeito controle de cena (nos possibilitando assistir pela máxima do voyeurismo até mesmo pelo gatilho comum do flashback), como personagens “bobos” e marionetes de um violento videogame de um submundo hostil, conectivo, secreto, vingativo, defensivo, pluralista e que precisa manter as aparências a qualquer custo. Como foi dito, é um filme sobre o fetiche. De esperar o “ladrão” garanhão mas sem deixar a proteção do spray de pimenta. Tudo é encenado, conotando um grande teatro-espetáculo da própria vida. Michèle (Isabelle Huppert) é uma realista-resignada executiva-chefe de uma empresa de videogames (que coloca “literatura e filosofia” nos jogos, “porque é a chefe”), a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. E é quando a direção de “Elle” fica preguiçosa, a atriz protagonista mantém a qualidade e equilibra toda o resto. Com a narrativa, elegante e leve, de detetive que tenta descobrir o agressor, o longa-metragem galga o caminho de que tudo pode ser possível. E que na verdade, talvez estejamos assistindo a dialética terapêutica de um passeio a la “John Malkovich” em versão Isabelle Huppert. “Ir a polícia não resolve nada”, diz na melhor representação “A Professora de Piano”, de Michael Haneke. Nada é do que um surreal jogo que “engana” magistralmente quem assiste. Aqui, características individuais-peculiares são expoentes para explicar condutas protetores de existências sociais. E é neste exato instante, que nós nos damos conta de nossa abdução na qualidade visual da história apresentada e que flerta confrontando nossas diferenças e percepções antiquadas. Concluindo, “Elle” é um exemplo futurista de libertar essências pela simplicidade naturalista de apenas ser o que se deseja ser. Nada mais que isso. E como disse Charles Bukowski: “Havia torpeza e hostilidade suficientes nela para me fazer sentir que a cada estocada eu lhe dava uma espécie de corretivo por seu gênio ruim”. Altamente recomendado.

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