Por Fabricio Duque
“Ponto Zero” tem o propósito de “mergulhar” seu espectador em uma ambiência existencialista diáfana de uma dimensão translúcida desconexa, simbolizada na concretude visual de uma abstrata e repressiva realidade assistida (quase uma regressão ao passado – próxima, contudo com a percepção de recordação acordada). O filme, dirigido pelo brasileiro estreante em um longa-metragem, José Pedro Goulart (do movimento “Brazilian Short Film Spring” e do curta “O Pulso”, busca personificar o confronto interno de seu protagonista Ênio (o impecável e irretocável ator Sandro Aliprandini – que encarna seu papel pela sutileza apática, mas não resignada – pelo contrário, e sim pela arquitetura pensante resiliente de uma esperança tímida e silenciosa), cujo “universo vazio, escuro, infinito” ao redor é “apresentado” como hostil, cruel, esquizofrênico, com “próximos” distantes, egoístas, indiferentes, altivos, a liberdade arrogante de ser e de agir de até mesmo seus familiares, agressivos, excessivamente individualistas em seus quereres, frágeis, catárticos e com a ronda iminente à perda dos limites mentais. Aqui, somos embrenhados no “apocalipse-descaso” da transmutação da sobrevivência de sua lucidez, existindo todo instante mais uma iminente batalha, que fará com que nosso “guerreiro”, de quinze anos, em processo de crescimento à fase adulta “responsável” (até porque há inversão dos papéis sociais – em que adultos comportam-se mais e mais adolescentes), tenha que impedir a todo custo o “vampirismo” da loucura dos outros, que tentará o dominar e o “abraçar” na co-dependência “teleguiada”. Logo no início, a narrativa conduz-se pelo etéreo e pela epifania, em uma narração-conversa, mais para monólogos individuais, sobre o espaço-sideral, distâncias curtas, mas longas e o “perto” que é apenas um “detalhe”. A poesia visual constrói a condução objetivada da trama, com cortes bruscos a uma cena de Bullying escolar (e que literalmente tem que comer o pão que o “diabo” amassou), confundindo propositalmente realidade e lembrança, vivência e memória, quase um Charlie Kaufman e seu “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. “Ponto Zero” é um filme sinestésico que está nos detalhes das micro-ações elipses continuadas, e que deseja “viajar” o público ao interno de seu personagem principal. E assim resgatar “revisitando”, como uma terapia de choque cognitiva, sua invisibilidade de não pertencimento. E acima de tudo, suas fragilidades medrosas – naturais e compreensíveis ao início da jornada, sua família disfuncional e da defesa recém acordada. O longa-metragem é como uma vida encenada em um conto realista dentro de um teatro trágico e louco. Ele descobre nas pequenas vinganças passivo-agressivas uma forma de conservar a sanidade do meio em que vive: a mãe depressiva e submissa ao marido; o pai ausente, machista, pressionado, agressivo, raivoso, no limite da explosão, e que “sobrevive se alimentando da desgraça dos outros porque pegou costume” (o excelente ator Eucir de Souza – um “monstro” em cena – que se entrega completamente a seu papel – sem medo de voltar); a irmã alienada; e a repetição de sua própria solidão, que agrada para não mais ser um fantasma que ronda e sim participar. Entre tantas maestrias, a que mais chama a atenção, é a permanência premissa do conceito original. Não se busca explicar este teatro estilizado e estético à mercê do “destino”, da “sorte” e de “putas poetas”, investindo cada vez na catarse surtada do surrealismo psiquiátrico alucinógeno. Até quando achamos que a narrativa perdeu o ritmo e se perdeu na perdição de seu personagem, nos damos conta que estamos, literalmente, dentro de seus questionamentos e suas encruzilhadas, com a febre física que “queima” seu corpo, que expurga o mal e a doença e que cura a alma. É sua chance de salvação. Concluindo, “Ponto Zero” é um filme altamente autoral, que está mais preocupado em transmitir o conceito, sem esquecer a forma. E assim, respeitando a inteligência e a percepção filosófica de seu público, o longa-metragem nasce obrigatório de se assistir e altamente recomendado, representando excelência de nossa cinematografia nacional. Por fim, um pedido: corra ao cinema, divulgue e faça com que possamos nivelar por cima a qualidade das exibições que são ofertadas e “consumidas” por todos. Foi exibido na seção Carte Blanche do Festival Internacional de Cinema de Locarno 2014, dedicada a auxiliar projetos de determinada região que estão em fase de pós-produção.

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