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Por Fabricio Duque

Festival de Cannes 2016

Sim, é inegável a apropriação do título ”O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” ao simbolismo vivenciado de satisfação prazerosa pelo espectador quando assiste ao filme que participou oficialmente da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016 (vencendo como Melhor Filme), sobre a história real do boxeador finlandês Olli Mäki, o o único pugilista da Finlândia que ganhou o Campeonato da Europa e era “amigo de Frank Sinatra”. Aqui, o longa-metragem, dirigido pelo estreante Juho Kuosmanen, filmado em película 16mm preto-e-branco (de fotografia saturada-granulada ao brilho, gerando uma atemporalidade em revisitar uma época pausada noir, tudo por “tirar o tempo quando você tira a cor”), constrói um retrato existencialista de sua preparação sistemática profissional e de sua melancolia. É inevitável não inferirmos a “Touro Indomável”, de Martin Scorsese e a cinematografia de Jim Jarmusch e seu “Sobre Café e Cigarros” por suas estéticas de classicismo visual. É um filme de amor, de diversão e de poesia com ambiência nostálgica-antiga de conversas naturalistas-espontâneos com tempo editado de cinema. ”O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” é contado pelo dia-a-dia, ora por micro-ações continuadas, ora por elipses, com picardias casuais cúmplices de “peso dos lutadores no dia do casamento da Igreja”. A narrativa desenvolve-se por momentos despretensiosos, livres, de interferências subjetivas (pela câmera próxima que acompanha o protagonista), como a máxima contemplativa do universo de um vestiário esportista, e com a metalinguagem representativa de um documentário sobre seu treinamento, que o deixa desconfortável, anti-naturalista, artificial, tímido, invadido, ridicularizado, constrangido, desconcertado, e que o impede de treinar mais para ser o melhor (como a manipulação marqueteira de fingir que a câmera é seu oponente). É a “Frances Ha” do boxe, que o ironiza de baixinho quando precisa de um banco para ficar mais alto. Um dos pontos altos do filme é a mitigação máxima de sensibilidades dramáticas, gatilhos comuns e clichês ambulantes tão recorrente e esperado neste tipo de gênero. Talvez a maestria aconteça por respeitar a característica principal comportamental de seu povo “easy going”, que pululam tratamentos sociais espirituosos-divertidos entre eles, inclusive verbalizando uma agressividade que é aceita como intrínseca e idiossincrática. O “estar apaixonado e o melhor momento de sua vida”, para ele é felicidade, mas aos outros é sinônimo de que “pode atrapalhar o desempenho”. No verão de 1962, Olli Mäki (o ator Jarkko Lahti) tem a chance de disputar o título mundial dos pesos-penas de boxe. Em todos os lugares, do interior da Finlândia às luzes da cidade de Helsinque, tudo está pronto para o seu sucesso iminente. A única coisa que ele precisa fazer é perder peso e se concentrar. No entanto, há um problema: Olli está apaixonado por Raija. Concluindo, ”O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” representa a mais pura essência de como uma obra cinematográfica deve ser e se comportar perante seu público. É a eterna máxima de que não se precisa de muito para que o objetivo qualitativo seja alcançado.

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