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Por Fabricio Duque

“Loving”, do diretor Jeff Nichols (de “O Abrigo”, “Destino Especial”), integrou a mostra competitiva oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016, e busca a narrativa nostálgica romanceada, de micro-ações de cortes rápidos (como a condução de uma partitura musical de um blues) e de ritmo espontâneo. A ambiência é construída do bucólico (o campo sereno que projeta o sonho de pacífico futuro) naturalista, com a inserção da música sentimental, a fotografia saturada ao brilho, uma cerimônia de casamento feliz, tudo conduz o espectador a uma atmosfera de um cotidiano editado. O conflito social de uma época comportamental aos poucos indica detalhes em elipses, como a opinião alheia de que a união ocorreu de forma instantânea e que deveria ter sido esperada. Todos não confiam, reverberando uma desesperança resignada e realista. A “proibição” reviravolta explicita-se, inferimos então “Doze Anos de Escravidão”, de Steve McQueen e a “Selma”, de Ava DuVernay, quando somos confrontados com as artimanhas do radical e violento preconceito de brancos contra negros (que valem “menos que um cachorro” e “não humanos”). Richard Loving (o ator Joel Edgerton) e Mildred Loving (a atriz Ruth Negga), um casal interracial, são presos em junho de 1958 por terem se casado no estado da Carolina. Jogados na prisão e exilados por vinte e cinco anos, eles lutam pelo matrimônio e pelo direito de voltar para casa como uma família. O longa-metragem deseja despertar no público a sinestesia quando esta luta se faz mais enérgica e necessária, a fim de mostrar esta relação como normal. O diretor caminha pela emoção sensorial, com sutilezas, como a cor negra de um e branco do outro; a filha de nome Vitória; os diálogos secos sem trilha sonora; a revolta pela humilhação; o inverno congelante; o espião no meio dos negros. Cada limite (como o lugar novo sem jardim) que recebem é estimulado com novos debates; novas ações escondidas; novas proibições de “mistura” e nova “marcha pela liberdade”. O roteiro utiliza-se dos artifícios-gatilhos-midiáticos de encontrar “abrigo” em uma carta ao presidente Kennedy (que acreditava na igualdade dos direitos civis); na revista Life. Como foi dito, os detalhes-metáforas conduzem por completo o filme (como por exemplo o carro branco ao preto majoritário). Outras reviravoltas “aprisionam” o espectador em um universo Blaxploitation de ser (blues com The Doors). É descambado a uma excessiva sentimentalidade no final. Inevitavelmente, o discurso precisa ficar mais emocional e manipulado para o grande ápice, partindo ao clichê do clichê romântico de um dramalhão americano. Desnecessário. Concluindo, é incrível como o encerramento precisa ser uma típica estrutura novelesca que se antes respeitava a inteligência e atenção do público, agora desmorona a própria “casa” cinematográfica construída. Não é ruim, pelo contrário. Só que derrapa na óbvia normalidade.

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