Por Fabricio Duque

 

Há algo muito errado ultimamente no mundo da cinefilia quando se adjetiva o novo filme, “Julieta”, do mestre espanhol Pedro Almodóvar, de comum (ou pior, de medíocre – pelos conterrâneos do diretor – cuja obra talvez cause a reverberação das máximas populares de que “a grama do vizinho é mais verde” e de que cada povo “despreza” seu próprio cinema). Em dois festivais internacionais de cinema, Berlim e Cannes, nosso site, Vertentes do Cinema, papeou com jornalistas-críticos estrangeiros e ouviu, quase por unanimidade, que italianos, turcos, russos, e neste caso específico, os espanhóis, não dão valor a suas produções cinematográficas nacionais (podemos até mesmo incluir os brasileiros). Com isto em mente, o espectador, cinéfilo e leitor consegue entender esta disfunção perceptiva opinada destes outros no longa-metragem em questão aqui. “Julieta”, que integrou a mostra competitiva do Festival de Cannes 2016 a Palma de Ouro, representa um crescente, equilibrado, nostálgico, realista e maduro existencialismo de suas personagens, que buscam reacender as cores intensas da vida (como o vermelho da paixão incondicional que “rasga” a alma e desestrutura a lógica do querer). Esta apatia depressiva da desistência passional metaforiza com nossa época atual que se comporta padroniza a superficialidade das relações humanas. O sentir está em segundo plano, tudo em prol de uma potencializada individualidade em não mais se preocupar, tampouco ajudar, a problemática de seus próximos (que cada vez se distanciam radical e explicitamente). A narrativa é conduzida por uma construção visual sensorial, e diferente dos filmes anteriores de Almodóvar, seus elementos característicos do universo Kitsch (referência de gênero, inclusive abordada em música “Esquadros”, de Adriana Calcanhoto) são utilizados pelo jogo de cena de reavivar a esperança e a vontade de viver. Inicia-se por cores reais e cotidianas, enaltecendo um roteiro preciso, também realista, perspicaz, e de sarcasmo fatalista (“Não gosto de comprar livros que já tenho. Faz-me sentir velha”), intercalando tipos diferentes à moda de David Bowie, em uma narrativa de micro-ações de elipses continuadas, que acompanham em longos planos a personagem. Aqui, talvez seja o contra plano de “Tudo Sobre Minha Mãe”, visto que é a “cria” (a filha) que ganha toda a obsessão e atenção de uma mãe (de uma elegância natural) resignada (com a cor branca, neutra, quase impenetrável) ao sofrimento, optando pela solidão e aparentemente louca por “não mudar para Portugal”. Aos poucos, este “mistério” é desenvolvido. Por livros e objetos de “volúpia”, por observações sem pressa, por andanças iminentes sem rumo, e assim quando resolve escrever e contar na carta tudo que aconteceu, é dado ao público à cumplicidade de participar das lembranças e das causas nostálgicas. A fotografia muda. As cores voltam. É Almodóvar típico, passional, amador, libertário, excessivo, cruel, verdadeiro, único, coloquial, instintivo e animalesco (como a imagem de um “veado que busca uma fêmea” que explicita que a protagonista “achou seu macho”, em uma viagem de trem (referência assumida a “Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock”), com a fantasia da memória – que tem como princípio e essência de enaltecer positividades e aumentar com “um conto, um ponto” – como a poesia do sexo refletido no espelho). E assim, “Julieta”, entre universos particulares e detalhistas: o livro “A Tragédia Grega”; a atmosfera noir; um homem misterioso; uma mala vazia; papos sobre “Ulisses, um herói por excelência”; referência a Kim Basinger; diálogos ingênuos, socialmente diretos e filosoficamente eufóricos, da entrega quase “adolescente” ao desejo”, sobre “juventude eterna e imortalidade”, e também sobre a vista (“que impressiona muito da primeira vez”); “sortes”, sessão de cinema “Winter´s Bones – O Inverno da Alma”, de Debra Granik; “tatuagens”; a “empregada” (defensiva no começo, e afetivamente relaxa e amigável depois) e conseqüências das ações hiperbólicas, liberta constantes novas experiências que são explicadas por uma conclusão tendência de que é quase impossível não “cair” na rotina acostumada, característica esta intrínseca ao ser humano. E aos poucos, as cores voltam à frieza. Só mesmo Almodóvar para integrar no que vemos todas as camadas psicológicas terapêuticas de uma existência sem “chantagens emocionais” e sem utilizar gatilhos manipulativos para fazer seu público se debulhar em lágrimas. Tudo é equilibrado à emoção espontânea. E de novo, como a violência da tempestade que recria o sentir, nós juntamos as peças do quebra-cabeça do “vírus da culpa” de “personagens obsessivos dos livros de Patricia Highsmith”, e após “doze anos de escuridão, a sol irradia a luz de uma liberdade redentora. É impossível a quem assiste manter-se inerte sem se emocionar por esta obra sombria da relação Nietzsche Lacaniana de uma mãe e sua filha (e com todos os desdobramentos inerentes esperados – e tentados não enxergar). A sinopse nos conta que Julieta (Emma Suárez / Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Entretanto, um encontro ao acaso com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. Concluindo, “Julieta” “cava” camadas e camadas por uma incrível e super leveza, simplicidade, sutileza e com a máxima maestria de Pedro Almodóvar de construir histórias. Quem disse que não gostou, ou não gosta de cinema, ou é “doente do pé” (e da cabeça). “Quando li os contos de uma autora canadense chamada Alice Munro fiquei fascinado pelas personagens, especialmente por uma delas. Tentei unificá-las, em torno de uma personagem principal chamada Julieta. O que foi um grande problema, pois tinha três histórias independentes”, disse o diretor. Recomendado.

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