la-fille-inconnue-poster

Um Estudo de Caso Dardenniano

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2016

“A Garota Desconhecida”, novo filme do irmãos belgas Dardenne, Luc e Jean-Pierre (de “A Criança”, “O Garoto da Bicicleta”, “Dois Dias, Uma Noite“), que concorre a Palma de Ouro aqui no Festival de Cannes 2016, corrobora a estrutura cinematográfica de sus diretores, em imergir o espectador na sinestesia. Nós sentimos os dramas de suas personagens que questionam ética, moralidade, humanidade, uma possível salvação à paz de espírito e uma libertadora redenção contra a culpa que sentem pelos necessitados (refugiados sem passaportes), potencializada quando um desespero psicológico transforma-se em uma tragédia.

A narrativa, por micro-ações continuadas da vida, é conduzida pelo naturalismo de um plantão médico que presta uma assistência a uma parcela da sociedade mais urgente a cuidados, perpassando pelo “choque” de um residente. O trabalho, confidencial e humanitário, desta médica transcende o próprio papel da profissão ao participar mais atenciosamente do tratamento (indo à casa e por isso “ganha” mimos e singelas homenagens).

Certa noite, após encerrar o atendimento no consultório-emergência, Jenny (a atriz Adele Haenel, de ” L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”), uma jovem médica perspicaz dedicada integralmente, que há três meses passou a trabalhar na vaga deixada por um médico veterano, escuta a campainha, mas não atende, por ser uma hora após o horário de encerramento. No dia seguinte, a polícia informa que uma jovem desconhecida foi encontrada morta perto dali. Ela fica abalada, se sente culpada, e querendo saber mais sobre esta jovem, ela passa a realizar uma investigação pessoal em busca de sua identidade, entrando em um submundo ilegal de pessoas que buscam a sobrevivência a cada dia.

“A Garota Desconhecida” não acusa, apenas faz com que nós possamos ligar os pontos de uma realidade que precisa ser escondida para não sofrer represálias e deportações. Jenny é ameaçada a desistir, a esquecer, a se alienar e deixar à deriva seus próprios princípios. Mas não consegue. Envolve-se conscientemente, quase em propósito obsessivo, e por “acreditar na confiança”, segue firme em suas convicções do social em prol do capital (dormindo no ambiente de trabalho, abrindo mão do lazer).

É inevitável não inferirmos Michel Foucault que indagava se o principal objetivo da medicina era ser social-coletiva e não apenas centrada no indivíduo, acreditando que na realidade esta prática possui uma tecnologia do corpo e tendo apenas como um de seus usos o tipo individual que valorizaria essa relação médico-doente, e essencialmente um controle da saúde e do corpo das classes mais pobres para torná-las mais aptas ao trabalho e menos perigosas às classes mais ricas.

Porém, seu final perde ritmo, cadência e embarca em uma desengonçada resolução, mostrando que este é apenas um período, um caso particular, pessoal e isolado entre muitos outros que acontecem diariamente. E que a vida continua e também que uma “andorinha só não faz verão”. “A Garota Desconhecida” é um estudo de caso, uma pontuação social de tentativa a um questionamento mais amplo, indo do específico ao genérico.


Os irmãos Dardenne reeditaram o longa após sua exibição no Festival de Cannes. Eles tinham planejado fazer algumas pequenas mudanças, mas, após consultas com o editor, decidiram fazer cortes mais extensos. No final, foram 32 edições adicionais para o filme, que agora é sete minutos mais curto do que sua versão original do Cannes. A nova versão foi apresentada no Instituto Lumiere, em Lyon, em junho de 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados