Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Cannes
14 de maio de 2016

 

A seleção oficial competição do Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016 reverbera o tema do fundamentalismo existencial-incondicional dos personagens que percorrem seus filmes. No americano “The Transfiguration”, de Michael O’Shea, a premissa é da crença “plano” no vampirismo, em que um negro “alimenta-se” do sangue de brancos. A narrativa ambienta o espectador na espontaneidade do cotidiano para criar um thriller de suspense e perigo iminente (como as propaganda outdoors de HIV e do espetáculo argentino off Broadway “Fuerza Bruta”) à moda de “Simon Killer”, utilizando-se do universo cinematográfico dos filmes “realistas” de terror-horror, como “Nosferatu”, “Lost Boys” e “Drácula”. “The Transfiguration” é também sobre a psicopatia (o prazer “instintivo animal” pela violência e a visceralidade do sangue”) “nascidas” e ou “despertadas” por trágicos acontecimentos. Não se sabe e também não é este o propósito desta obra. O que se quer é retratar o gosto pelo diferente, em que uma felação pode ter o mesmo barulho de um sangue chupado. Se não fosse pela estranheza optativa, Milo, seu nome, poderia ser considerado “normal”. Mesmo sendo um “crônico” realista “que não vê necessidade de se colocar flores no túmulo, porque não existe ninguém”), e um um estudante que sofre “bullying”, que mora em um bairro negro (com gangues de traficantes violentos e venda de drogas – e que se vingam do preconceito de “brancos que querem comprar drogas de negros”) e que perdeu a mãe recentemente. Mas a atmosfera sensorial de mundo zumbi apocalíptico e de ruídos potencializados torna este filme com status quo de “Um Drink no Inferno”, de Robert Rodriguez, contudo derrapando em diálogos fragilizados que denotam obviedades vazias sobre assuntos bobos e ações desengonçadas. Mas há exceções como o embate “Crepúsculo” de ser (“Vampiros não brilham”), o “pseudo” realismo de “True Blood”, e a cena do “Central Park” que “homenageia” o filme “Deixa Ela Entrar”. Oscar Wilde já dizia em “O Retrato de Dorian Gray”, que só há uma forma de acabar com a tentação: é se entregando. Milo quando encontra um “amor” e vivencia uma feliz e pacífica “Long Island”, transfigura-se, deixando para trás o “projeto” construído com “regras” excessivamente detalhadas (como o sangue dos bons que o faz vomitar). “Você tem que fazer o que tem que fazer”, diz-se. E no final, o conto não consegue fugir do óbvio e do comum, e assim se perde na tentativa de se achar. É interessante e tem premissa curiosa, só por isso já vale à ida ao cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados