Por Fabricio Duque
Durante o Festival de Cannes
15 de maio de 2016

 

O novo filme de Bruno Dumont, “MA LOUTE”, que concorre a Palma de Ouro na seleção oficial da mostra competitiva do Festival de Cannes 2016, é o típico exemplo de películas que não se definem facilmente, tamanho o grau de inserções híbridas de gêneros. Aqui é buscado criticar, em tom de humor surreal-pastelão-circense (proposital, aludindo até mesmo a dupla “O Gordo e O Magro”), a hipocrisia da sociedade pela caricatura teatral. A história é sobre ricos aristocráticos que se “aventuram” durante suas férias a um lugar exótico “pitoresco” e “selvagem”, tentando assim conhecer “à fundo” os costumes locais como um “trabalho” antropológico em ações-reações em ensaio-picardia. É uma alegoria realista radiografando as diferenças das classes sociais-burguesas. Se nos desfavorecidos, a pobreza (de buscar mexilhões e sobras) significa um limite (e a constante necessidade da sobrevivência), já nos “narizes em pé”, uma diversão “bela”. O filme metaforiza a artificialidade versus necessidade da “alimentação canibal”, com uma fotografia-pintura a la “A Moça com Brinco de Pérola”, do pintor holandês Johannes Vermeer. O filme experimenta uma estranheza histérica, em que defeitos físicos (e desvios de personalidade) são potencializados à necropsia. A visceralidade (a “quintessência da beleza”) é o protagonista deste aprofundamento “sublime” e do “divino” superficial de mundos confrontados. Cada lado possui seus costumes e vivências próprias, em que medo, aceitação (a menina que se veste de menino para fugir da padronização e corroborar diferenças ou apenas um “conceito”), pânico, fantasia, resignação e atraso são características reinantes de um universo-percepção alterado (os turistas; a revolta do cuspe; os exacerbados ruídos-barulhos – que remetem a engrenagens-articulações ranzinzas defeituosas; as referências aos monumentos egípcios; as pessoas que desaparecem; a futilidade blasé; a felicidade esnobe; os ricos com roupas claras e os pobres com escuras – os mortos; preconceitos e limites toleráveis; as desconfianças), e assim esta estranheza-mistério (da ilha de rainhas, nudistas, pederastas e loucos) torna-se comum, em um perverso jogo, como se não existisse outra forma de existir, bem à moda da cinematografia de Wes Anderson. São reverberadas formalidade versus grotesco, dissecando a falsidade ingenuamente objetiva de uma esquizofrenia disfuncional a la “Morte em Veneza”, de Thomas Mann e “A Bela e a Fera” da eterna relação do ser humano em ter a obrigação de se relacionar socialmente com o próximo. Concluindo, como foi dito, o espectador não sabe o que viu, só sabe que gostou nesta inserção experimental do cineasta Bruno Dumont, em um famoso e cultuado elenco.

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