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Duas Perspectivas Young Girls de Park Chan-Wook

Por Fabricio Duque

“A Criada”, que integra a competição a Palma do Ouro no Festival de Cannes 2016, novo longa-metragem do sul-coreano Park Chan-Wook (celebrado e aclamado por “Old Boy”, “Lady Vingança”, “Segredos de Sangue”, “Eu Sou um Cyborg, mas tudo bem”) configura-se como um “thriller” erótico (um “crime drama”), pelas definições de seu próprio diretor, que se baseou na novela “Fingersmith”, da autora inglesa Sarah Waters. “Eu escolhi a história porque as duas mulheres no centro da trama sentiam-se vivas. Uma é uma pessoa com um passado trágico, e a outra vivendo um presente desesperado, mas as duas com uma poderosa individualidade e charme”, disse Chan-Wook na coletiva de imprensa em Cannes.

Outro elemento que o cineasta explica é o motivo de ter modificado a época temporal. “A Criada” é ambientado na Era Colonial dos anos trinta, esta escolha por ser um período “tradicional” com seus “objetos raros” colecionados por uma das personagens. A câmera transpassa ao espectador não só apenas um movimento formal da gigantesca casa cenário, mas sim um definidor da narrativa, tudo porque é um filme sobre perspectivas, de duas mulheres. Na parte um, a de Sookee (a atriz Kim Tae-ri) e na parte dois, a da Lady Hideko (a atriz Kim Min-hee). Como curiosidade lembrada por Chan-Wook, inicialmente, planejara filmar em 3D para “enfatizar a perspectiva de cada uma delas em um caminho mais pronunciado”.

Em “A Criada”, a figura da casa é um importante espaço. Nesta, combinou-se faroeste (como a biblioteca Western) com estilo japonês. O longa-metragem busca, talvez propositalmente, ainda subjetivo, construir uma atmosfera teatro-novela-livro com personagens anti-naturalistas e forçados em suas interpretações. O início é um sucessão de ângulos por gatilhos comuns, típicos de um estética hollywoodiana por mostrar epopéias existenciais. Clichês e caricaturas pululam em nível ingênuo, como a empregada que não sabe ler, mas será ensinada para servir uma Lady aristocrática, problemática e depressiva.

A “Handmaiden”, seu título original, aos poucos “mostra as asinhas”. Ela vem da classe baixa-pobre e fica fascinada com o novo estilo de vida, instigando a inveja e o querer desejado de ser rica. Experimenta chapéus caros da patroa, por curiosidade e ou por tédio e ou para sentir a fantasia projetada do momento. E brinca de “amiga”.

O talvez de antes, nesta parte fica ganha mais evidência. Park Chan-Wook quer simplificar ao máximo a apresentação para aprofundar a complexidade das camadas detalhistas (por um conto japonês). “A Criada” vai ganhando estranheza, exageros, elegância vintage naturalista e atmosfera fálica-sexual, pela atração lésbica indiciada (como sentir o arrepio ao apertar o espartilho). A mise-en-scène mais superficial descobre a metáfora e a “essência para pintar”.

Coreia do Sul, anos 1930, durante a ocupação japonesa, a jovem Sookee é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, Hideko, que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário. Só que Sookee guarda um segredo: ela e um vigarista planejam desposar a herdeira, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório. Tudo corre bem com o plano, até que Sookee aos poucos começa a compreender as motivações de Hideko.

Em todo filme, há um limiar tênue entre a demasia do sentimental (“culpa de ter nascido”) e o conteúdo, entre lembrança e realidade. E assim, a história segue o curso como a “persistência dos pretendentes” a fim de despojar a Lady, e nós sentimos a carga sexual e a força de um amor proibido. A passionalidade, a loucura do sonho, as costas envergonhadas, a boneca jogada, a criança sem mãe, a fantasia gueixa, o medo, a figura peniana, o beijo ensinado, o sexo oral, a fantasia, a realidade, a crueldade paterna (de uma tortura autoritária), a salvação da loucura. Inevitavelmente, “A Criada” ganha insanidade e toques pesados de “Old boy”, com toda a violência sentida e sem limites, alterando a mente que fora humilhada e manipulada, particularidades de perversão sadomasoquista e do “ópio mais importante que joias”, ora dependendo da pobreza, ora da lindeza.

Quando terminamos de assistir “A Criada”, nossas percepções são confundidas com a própria experiência projetada. De um sentido e medroso filme a um Thriller psicológico por uma riqueza de detalhes que não poupa ninguém. E o talvez da sinopse vira obrigatoriedade quase cinéfila, mesmo nos manipulando com uma edição ultra fragmentada que atordoa a montagem dos quebras-cabeças. O título do filme em coreano “Ah-ga-ssi” significa “A Dama”, se referindo a Lady Hideko, enquanto o título inglês é “The Handmaiden” fazendo assim referência a Sook-hee.

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