Por Fabricio Duque
Direto do 69. Festival de Cannes 
12 de Maio de 2016
Uma das características do Festival do Cannes é possibilitar um diálogo bilateral por filmes escolhidos em suas sessões de abertura. O “advogado do diabo” da vez é da mostra Un Certain Regard, “Eshtebak (Clash)”, que vem questionar que em uma guerra (ou em protestos contra o Governo) não há lado certo. E sim, puro e pleno, de forma incondicional, o passional da sobrevivência egoísta e ou de seus entes próximos. No longa-metragem (bem à moda de “A Memória Que Me Contam”, de Lúcia Murat e a frase “Nós revolucionários também matamos”), sobre a revolução egípcia no Cairo (no período explicado de 2011 a 2013), o diretor Mohamed Diab (de “Cairo 678”) explora, em camada radiografia próxima e subjetiva (pela câmera que aprisiona o espectador no meio abordado – sempre dentro do camburão, durante um dia qualquer de uma detenção feita pela polícia, chamada de “clash” – referenciando mesmo sem querer o húngaro “O Filho de Saul”; e das mulheres-personagens que só existem dentro de uma salão – cujo filme não será explicitado aqui após a “loucura corrida” deste festival), de que não há inocentes. De certo modo, todos, sem exceção, são “tiranos” e seguem regras (“achismo” não questionador) “impositivas” recebidas pela família e ou pelo próprio nicho em que moram, investindo pequenas ações que desencadeiam o caos generalizado do “efeito borboleta”. Suas convicções políticas e seus princípios do que querem no mundo potencializam as consequências de seus atos, os levando a uma “viagem” no sofrimento, desespero e na alimentação da ultra sensibilidade dramatizada e ingênua. Logicamente, o filme precisa ensaiar seu jogo de cena por estar “personagem” e em um curto espaço de documentação ficcional. O próprio Carl Marx em seu livro-bíblia “O capital” disse que o caos gera o surto da loucura, porque lidamos com idiossincrasias particulares de seres humanos dotados de fragilidades influenciadas existenciais. “Eshtebak (Clash)” é interessante no contexto e na premissa de seu jogo de cena (tentando uma encenação realista – como jogar pedra ao invés de ajudar), mas ingênuo e inocente em inserir saídas em gatilhos comuns óbvios e reviravoltas clichês “caseiras” de seus personagens: o choro silencioso; a dura em jornalistas de guerra (“traidores e mentirosos” em que “uma foto também pode ser uma causa”); a prática de “cada um por si e Deus (ou Alá) por todos”; a camisa “F*uck This Shit”; a hipocrisia de uma mãe que leva o filho para protestar mas não o deixa assistir à violência. É a utopia oportunista (muda-se de lado para não morrer). O que se percebe é que lá os protestantes “peitam” mesmo a polícia e levam o objetivo até às últimas consequências, e que estas “vítimas” (tanto insatisfeitos, quanto policiais, são humanizados) estão recebendo um “presente” de reavaliar preconceitos e ideologias, entre a confusão sem controle das brigas políticas, embates religiosos, conflitos orgulhosos, agressividades físicas e verbais. Como foi dito, o longa-metragem não julga e não escolhe um lado, apresentando imparcialmente os dois lados “da moeda” (os guardas comendo enquanto os outros passam fome; a revolta de uma mulher ter que ir ao banheiro; a investida da intimidação dupla; ator que fará a audição para o filme de Sherif Arafa – diretor de inúmeros filmes sobre a Cinema Egípcio). E “salve-se quem puder” (inclusive o policial “novo”). Podemos traduzir esta obra cinematográfica como um teatro-novela filmado, de ações-reações infantis, judeus versus cristãos (cada um com sua superioridade em achar que seu lado é mais “divino”). Sim, a preparação cenográfica é gigantesca (um enorme trabalho de produção), só por isso o filme deve ser assistido. Concluindo, bobinho, porém curioso e com boas sacadas geográficas.

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