Por Fabricio Duque

 

Uma das grandes qualidades de “Desajustados” é imergir o espectador na sinestesia do protagonista, um ser humano “errante” e tímido, à margem da padronizada sociedade, chamado de “esquisito” pelo comportamento diferente (estar acima do peso e ainda virgem, conviver com “batalhas” nerd-geek metaforizadas – desencadeando o “bullying” cruel, hostil, julgador do outro próximo – desferindo depreciativos adjetivos). Fúsi é silencioso, obediente às regras impostas do trabalho e resignado à condição de seu estágio atual. O longa-metragem, dirigido por Dagur Kari (de “Dark Horse”, “O Bom Coração”), mescla estruturas intrínsecas de duas nacionalidades: a Islândia e a Dinamarca, conseguindo, assim, a excelência, por saber dosar de forma afiada, espontânea e natural, uma sutileza expressionista com drama existencial, cujo teor chega a causar incômodo proposital. Como foi dito, quem assiste sente na própria pele o sofrimento calado do personagem principal, a possibilidade ofertada de um recomeço “social”, um futuro “florido”. Ao longo do filme, muda-se o status quo de resignado, que não sabe dizer não, para o de resiliente, em que sonhos “despertados” reverberam um querer “adormecido”. Não há como o espectador sair imune, até porque o roteiro não busca a suavização, mesmo com as recorrentes transições à felicidade projetada, desejada e desmedida. Aqui, podemos traduzir Desajustados” como uma fábula apática do “crescimento”, da maturidade que estimula a troca do leite por álcool, brinquedos pela vivência de uma vida adulta – que cuida, se preocupa, tratando da depressão (vista pelos outros como uma “mistura de autopiedade com preguiça” e “o coquetel da moda) da mulher “gari” amada (invertendo o estado de ser cuidado pela mãe). O solitário Fúsi, interpretado com precisão irretocável pelo ator Gunnar Jónsson (de “A Ovelha Negra”), aceita a condição da rotina (de continuar com a mesma comida no restaurante no mesmo dia da semana; as mesmas músicas de rock pedidas na rádio) de viver com mais de quarenta anos na casa dos pais (entre seu hobby, seu amigo e sua simplicidade), e também de que seus vizinhos e ou colegas de trabalho alimentam fragilidades de comportamento (“São homens e homens fazem isso”). É um filme imperdível porque desnorteia seu protagonista incompatível com as iminentes e rápidas mudanças, desilusões, percepções do “inferno dos outros” (que vê mais a maldade que a sensibilidade do afeto) e se nada der certo, retoma, sem orgulho, a existência anterior. “Desajustados” é desenhado por detalhes analíticos-cotidianos. É um processo de construção que usa o tempo a seu favor, um “soco no estômago” à moda “Dogville” (sem a catarse da vingança), uma terapia de choque a seu tempo de “super-herói” (pois o que mais quer é salvar seu intérprete e até mesmo sua filha na vida real – do diretor – Franziska Una Dagsdóttir, a personagem Hera. Concluindo, um longa-metragem, que foi exibido no Festival de Berlim 2015, obrigatório de ser assistido. Não é monótono, tampouco cansativo. É um retrato sobre a dificuldade de se relacionar em comunidade. Nota máxima.

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