A Nova Realidade Que Praticamente Reinventa O Cinema

Por Fabricio Duque

 

De vez em quando, o Vertentes do Cinema “acorda” a Sessão Com Público, optando assim assistir primeiramente em uma exibição um dia após o filme ter estreado. O sábado foi escolhido, no horário de quatorze horas e quarenta minutos do Cinema Estação Net Rio 1. E o longa-metragem, “De Onde Eu Te Vejo”, de Luiz Villaça, casado com Denise Fraga, a atriz principal do filme em questão. A sessão estava quase lotada. Mas o que motivou este preâmbulo foi o “incidente” final. Na saída, duas senhoras (uma mãe idosa e a filha de quase sessenta anos) conversavam escolhendo qual filme assistir. Uma disse a outra: “Este não mãe! É nacional com a Denise Fraga. Ninguém merece!”. Sim, caros leitores-espectadores-cinéfilos, ainda há preconceito com o nosso lutador cinema brasileiro. E o pior, pré conceito (informação massificada antes de se conferir o “dito-cujo”. Então, queridas senhoras, “De Onde Eu Te Vejo” é sim um exemplar altamente satisfatório de puro produto nacional, já que se sobressai a autoralidade-texto-conceito. Ainda digo mais, é um desbunde maravilhoso de nível elevado de técnica e interpretação. Sim, em um primeiro momento, “recebemos” uma referência de estrutura seriado “GNT” (“Três Teresas” para ser mais “exato”, talvez por ter a Denise Fraga no elenco principal) de ser, e talvez pela “união” comercial da Warner Bros, Globo Filmes e BossaNova Filmes. Não, isso apenas corrobora sua maestria. E sim, é muito bom. A narrativa está mais para a liberdade-perspicaz comportamental de naturalidade-espontaneidade-existencial de “Pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck, talvez pela presença do elemento novela, dividindo-se em núcleos de humor (pela atriz Marisa Orth, uma “pessimista-lúcida” e que perdeu no trabalho “toda a pigmentação do cabelo”; “Alguma coisa boa tem que vir da desgraça”), drama, conflitos e redenções. “De Onde Eu Te Vejo” é, acima de tudo, um filme apaixonado e exponencialmente pessoal (por “assumir” que as histórias ficcionais são na verdade baseadas em realidades vivenciadas – e talvez pela atriz-protagonista conversar literalmente com a câmera e automaticamente com o público, o personificando em um cúmplice-ouvinte nesta “terapia de casal”). Aqui, o protagonismo não só pode ser apenas conduzido pelos atores (todos impecáveis), e sim, pela transcendência da geografia visual, transformando a cidade de São Paulo em uma representação nostálgica, de lembrança, de memórias saudosistas, de resgate de um passado “apressado”. Há além seus metafóricos adjetivos de embate-confronto-idiossincrático de individualidades únicos e particulares de seus indivíduos sociais em uma “cidade que os engole”. O filme é sobre o tédio da rotina familiar e da própria vida, de tentar sempre o recomeçar, uma “mudança equilibrada”, buscando, porém, conservar o “comodismo” do antes, como se “separar” de um apartamento para outro em frente. De um lado, a “prisão” a regras, “rituais” e aos sinais de “energia” (a mulher), que “trocou o mar pelos prédios” e que “entra” nas histórias de outras pessoas. Do outro, a leveza de que “toda hora é hora de pizza” (o homem). No meio, a filha “híbrida” (a atriz Manoela Aliperti), mesclando no jeito espirituoso (de chamar seus pais pelos nomes próprios) toda a criação (e características enraizadas) que recebeu de seus “procriadores” (“Quando você sai da sua zona de conforto, aí a magia acontece”; “Vinte e quatro naquela época equivale ao dezessete de hoje”). O roteiro não se importa em seguir fórmulas cinematográficas já “consistentes” e “aceitáveis”, e assim, quebra a própria trama inserindo novas direções e caminhos (“instinto de sobrevivência” de uma “trepadeira que se adapta logo na superfície mais próxima” e que resolve “crises no casamento com teatrinho” – “É fácil lembrar a lembrança que temos do amor”). “Para que mudar? O que dá certo, dá certo”, diz-se. Sim, não é fácil. Uma vida foi construída (ter a companhia, o carinho, o cuidado, o amor no lado “imutável” da cama), mas que por um “capricho” (ou “progresso”) quer “demolir, sempre por um caminho pior”. Como foi dito, os atores estão irretocáveis, interpretando por sutis-críveis-possíveis expressões-reações (como a “República” da filha e ou “gritar” na janela”). É um filme sobre as “novas” perdas, “novos” medos, “novos” recomeços, “novos” confrontos, “novas sacolejadas” e novas adaptações de “plantas que se reproduzem fora de época”. “O que lembra da coisa é melhor que a coisa”, finaliza-se. No final, ao sairmos do cinema, pensamos na frase dita no meio do filme “O que você pensa naquele um segundo depois que você sai do cinema e cai na rua (não aquele do shopping)?”. A sinopse nos conta que Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor. Concluindo, “De Onde Eu Te Vejo” é uma preciosa arte cinematográfica. Realmente, sinto pelas duas senhoras que “perderão” uma excelente e altamente recomendada experiência.

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